Ecogastronomia: Comer Muda o Mundo

Edição: 710 Publicado por: Carolina Fonseca em 19/08/2020 as 08:52

 
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Quando escrevi a coluna inaugural deste jornal, anunciei que falaria sobre todos os aspectos da alimentação. Falar de comida não só como fonte de nutrição do corpo, mas como combustível da alma. Um deles é de extrema importância: ‘comer é um ato político’. E o que seria isso, exatamente? Como o fato de escolher o que comemos pode mudar o mundo?

O Movimento Slow Food – iniciado na Itália nos anos 80, defende que o alimento deve ser ‘bom, limpo e justo’ para todos nós. A tradução ao pé da letra dessa filosofia seria ‘comer devagar’ e também carrega o significado de ‘comer consciente’, com atenção a todos os fatores que estão implícitos: emocionais, sociais, culturais e nutritivos.

É um contraponto ao Fast Food, que representa a comida porcaria e ultraprocessada que nos foi enfiada goela abaixo nos anos 90 – quando peculiaridades da nossa história atraíram para o Brasil multinacionais e seus (péssimos) produtos. Uma relação direta entre prato e planeta, que sempre foi de conhecimento de quem pensa comida e sustentabilidade.

Segundo a ideologia do Slow Food, o ‘bom’ remete ao prazer cultural de comer; o ‘limpo’, que deve ser produzido com práticas sustentáveis; e o ‘justo’, reforça as relações comerciais baseadas na economia solidária – valorizando o ser humano, tanto com remuneração adequada para quem produz, quanto com valor acessível ao bolso do consumidor consciente.

Um dos conceitos difundidos pelo Slow Food é a Ecogastronomia, que prega a união entre prazer e ética. O prazer de comer está diretamente ligado ao preparo dos alimentos. Cozinhar com tempo e cuidado, e, ao ingerir os alimentos, fazê-lo como parte de um ritual, que inclui saborear e absorver os nutrientes. Durante a refeição, degustar e aproveitar o momento.

Já a ética na alimentação envolve o localismo (consumo regional dos alimentos), o respeito à sazonalidade (colheita da época, sem a aceleração pelo uso de agrotóxicos e fertilizantes) e à sociobiodiversidade brasileira, além da valorização da agricultura familiar e dos pequenos produtores; com objetivo comum de reduzir os impactos ambientais, sociais e na saúde.

A ecogastronomia está diretamente ligada à agroecologia e para promover o cultivo sustentável, precisamos refletir a respeito dos benefícios deste sistema de produção. Utilizando-se de técnicas e saberes tradicionais, a agroecologia incorpora princípios ecológicos às práticas agrícolas; valorizando a sazonalidade e a diversidade.

O agronegócio padroniza os produtos ao promover a produção em larga escala, ininterruptamente. Um modelo que só é viável pelo uso elevado de substâncias químicas. E cria-se um círculo vicioso: quanto mais se aplica o veneno, mais a praga cria resistência. Ele vai perdendo sua eficiência e precisa ser aumentado ou misturado a outros.

Comer é respeitar os tempos do mundo e variar os alimentos consumidos também é de extrema importância. A agroecologia não só produz alimentos com mais qualidade (mais nutritivos e saborosos), mas a variedade ofertada é proveniente de sistemas de policultivo, onde o cultivo de um tipo de alimento contribui e complementa a produção de outro.

Batizei a coluna pegando emprestado o nome de um perfil no Instagram pelo qual sou apaixonada: o @comermudaomundo, uma fonte diária de inspiração. A idealizadora é dessas pessoas que não desistem: acredita na comida de verdade, sem veneno, saborosa e resultado dos saberes tradicionais de quem trabalha no campo.

Informe-se de onde vem a sua comida. Vamos priorizar os alimentos sem agrotóxicos de agricultores familiares e os produtos artesanais com qualidade diferenciada, que sejam produzidos de forma que respeite tanto o meio ambiente, quanto quem cultiva e quem se alimenta. O modo como comemos pode, sim, mudar o mundo.

“É inútil forçar os ritmos da vida. A arte de viver consiste em aprender a dar o devido tempo às coisas”. Carlo Petrini, fundador do Movimento Slow Food

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