O caminho do alimento até o seu prato

Edição: 712 Publicado por: Carolina Fonseca em 02/09/2020 as 08:30

 
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Quando falamos em comer bem, no geral vem à cabeça ter uma dieta mais equilibrada: dar atenção para os alimentos saudáveis, controlar a quantidade ingerida e beber bastante líquido. Com o avanço devastador do agronegócio essa equação ficou um pouquinho mais complicada. Não basta comer bem, é preciso comer consciente. E como podemos começar?

Aqui no Brasil ainda estamos engatinhando no quesito consciência alimentar. Poucas são as pessoas que conhecem de perto a agroecologia, entendem os benefícios dos alimentos orgânicos, dão preferência aos alimentos sazonais, praticam o localismo e comem produtos da biodiversidade brasileira - incluindo Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANCs).

Aliás, as PANCs merecem atenção. Cada vez mais presentes na mesa do consumidor consciente, são os matinhos comestíveis, que nem todos conhecem. Folhas, flores, frutos, sementes, raízes e castanhas, que crescem espontaneamente (muitas vezes em calçadas, quintais, terrenos baldios, jardins e canteiros públicos).

Com a campanha ‘Agro é Pop”, por exemplo, a imprensa de massa presta um desserviço à população, fazendo com que muitos acreditem que o alimento produzido pelo agronegócio é o que devemos ter na mesa. Ledo engano. Uso indiscriminado de agrotóxicos e trabalho escravo estão entre os problemas mais graves trazidos pela produção nos latifúndios. picture0009.jpg Foto: Olhar Saudável | Simone Carrocino

Supermercados e lojas providos pelas Centrais de Abastecimento (no Rio de Janeiro, a CEASA), por exemplo, vendem esses alimentos padronizados, frutos de monoculturas, que exigem mais veneno para serem produzidos e, também, para serem mais resistentes. Produtos de pele ou cascas mais duras, para enfrentar a longa cadeia de distribuição.

O seu alimento, que deveria ser fresco, sai do latifúndio, entra no caminhão, pega estrada, na central rola na esteira e depois pega mais transporte para chegar nas lojas... Por isso, muitas vezes, produtos que deveriam durar bastante, acabam estragando mais rápido, mesmo na geladeira. Os alimentos que vêm direto da roça, muitas vezes resistem mais de 1 mês...

Mas como combater isso? É aí que entra o ‘comer consciente’. Saber o que você está comendo é também entender de onde vêm seus alimentos. É conhecer o caminho que a comida faz até chegar no seu prato. E o ideal é que seja direto do campo para a mesa, promovendo o movimento que é chamado de localismo alimentar.

Localismo vem do inglês ‘locavore’. O sufixo ‘-vore’ vem do Latin ‘vorare’, que significa ‘devorar’. Em inglês, o sufixo forma outras palavras usadas para denominar os diversos tipos de hábitos alimentares: omnivore = onívoro (fontes vegetais e animais), carnivore = carnívoro (fontes animais), herbivore = herbívoro (fontes vegetais), e assim por diante.

Tudo o que ingerimos tem um valor, gera um impacto social, e a atuação dos personagens que estão por trás do que se come varia de acordo com o modo de produção. Devemos fazer algumas perguntas simples: a remuneração é justa? Como são as condições de trabalho? Qual o controle da qualidade dos alimentos? O que se come é fresco, saboroso e nutritivo?

A relação Prato x Planeta que mencionei na semana retrasada, quando escrevi a coluna ‘Ecogastronomia: Comer Muda o Mundo’, faz parte da (re)educação alimentar. E para nos alimentarmos melhor e fortalecermos essa ligação do campo com a mesa, é necessário comer local. Ou seja, encurtar o caminho da comida até o prato.

O localismo promove o consumo de alimentos cultivados localmente por diversos motivos: desde a melhora da nutrição (alimentos mais frescos, orgânicos, saborosos e nutritivos, cultivados por agricultores familiares praticantes da agroecologia), passando pelo apoio a pequenas propriedades e empresas locais, até à redução da pegada de carbono.

E, aqui em Valença, temos motivos de sobra para praticarmos o localismo. A feira livre leva até você alimentos frescos, cultivados nas redondezas. O bairro de São Francisco, assim como a cidade de Rio das Flores, tem produção de orgânicos (ainda que tímida). E mesmo nesse período de distanciamento, existe a iniciativa da Feira Livre Virtual (@feiralivredevalenca).

Além dos frescos, temos os melhores laticínios, super desejados na Cidade Maravilhosa, que chegam à mesa direto da cooperativa. Produtos da Boa Nova e da Vitalatte são vendidos como iguarias em supermercados da Zona Sul do Rio de janeiro. E conhecendo bem a região, pode-se, ainda, comprar direto de um pequeno produtor, sem intermediários.

Vamos preservar a sociobiodiversidade brasileira. O caminho natural, sustentável e saudável é nos adaptarmos à Mãe Natureza e não o contrário. Resistir à produção em larga escala e priorizar os métodos tradicionais ancestrais. Celebrar nossos sabores, nossos saberes e nossa culinária com paladares tão complexos e surpreendentes. Reverenciar a nossa cultura.

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