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Memória Inflacionária e o ato de planejar

por Sonia Vilela
Fazer previsão para as empresas e famílias, nos últimos tempos, não tem se constituído em uma prática simples para a maioria dos brasileiros. Uma das explicações técnicas mais razoáveis pauta-se na memória inflacionária que assolou a economia brasileira ao longo de, pelo menos, trinta anos. Naquela época, não havia a menor possibilidade de previsão por conta da dispersão de preços relativos. De uns tempos para cá, com a inflação debelada, as empresas e famílias começaram a fazer planejamento. As empresas brasileiras passaram a planejar ações de longo prazo, ainda que, para o prazo máximo de cinco anos. Hoje, as empresas brasileiras já fazem planejamento para dez anos. Isso só é possível por conta da estabilidade econômica ou controle da inflação. Para a maioria das famílias, ainda, é algo novo. Em alguns casos, há a resistência para fazê-lo, seja pela falta do conhecimento prático, seja pelo excesso de perspectivas –  sonhos - que podem distorcer a realidade do momento, levando às frustrações de previsões que não se concretizam. Se isso pode trazer complicações para as famílias, imagine para uma empresa. Cabe aqui a frase do livro infantil “Alice no país das maravilhas”: “- Quem não sabe para onde vai, qualquer caminho serve”.
Ainda que haja enganos de previsão, é mais fácil corrigir os erros no percurso, do que ser totalmente pego de surpresa por não ter feito planejamento algum.
Outra explicação para as dificuldades em planejar, é conhecida, na teoria econômica, como demanda reprimida. Muitos brasileiros possuem grandes desejos de consumo cuja renda pessoal não permite concretizá-los. São muitos os apelos de consumo, lançamentos de produtos inovadores, técnicas de vendas e geração de demanda, que leva aos indivíduos consumirem além da sua renda. A saída encontrada pelo capitalismo de consumo foi a ampliação do crédito. Só assim, a maioria das famílias pode adquirir bens, de valor muitas vezes superior à renda. Mas, por outro lado, sem planejamento ou outro o instrumento de previsão – orçamento -, elaborado com bases realísticas, pode dificultar uma eficaz gestão dos seus recursos. Conter os impulsos consumistas não se traduz em tarefa fácil, pode ser até uma compensação, momentânea, de algo não alcançável.
Mas, tais questões são problemáticas pertinentes não apenas às áreas privadas (famílias e empresas). Tal prática, também, esteve e está presente na área pública. Ainda que, o planejamento, no passado, já fosse obrigatório para os entes públicos, as previsões eram feitas com grande teor de “chutometria”, dado que, os parâmetros eram débeis por conta da inflação alta e, em alguns momentos, por conta da hiperinflação. Para controlar a inflação, foram implementadas algumas reformas que propiciaram o Plano Real. Entre elas, a obrigatoriedade das instituições públicas em elaborar seus orçamentos com a previsão realística de receitas e, não mais, a partir das despesas.
E para isso, o arcabouço jurídico para obrigar aos ordenadores de despesas (representantes do Executivo) a cumprirem a determinação de controle de gastos públicos foi intenso.
Daí, a responsabilidade dos gestores públicos passou a ser o foco das atenções, por conta de que: despesa maior que receita distorce os preços e causa uma doença crônica – inflação - em todo o sistema econômico. E, quem paga o “pato” é sempre o mais pobre, que possui rendimentos fixos e não tem como repassar aumentos de preços. Portanto, o fato de que é necessário planejar e prever de forma racional é algo novo para o governo e para as empresas, quanto mais para as famílias.