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"Apuros do Jornalista"

por Redação
“O fanático accusa o redactor de um jornal de um ímpio, se não sustenta a hypocrisia; o libertino appellida-o de fanático, se elle pugna pelos verdadeiros interesses da religião; o faceto queixa-se de que o jornal não é um charivari; o taciturno lamenta que o periódico seja sério; o homem da sciencia quer o jornal cheio de artigos profundos; o que busca leitura recreativa vocifera porque o redactor só escolhe assumptos massadores (....). Não há posição mais critica do que a de dever agradar a todos. (...) Um pobre redactor não pode dar um passo sem pisar os calos de outrem. Se exprime a sua opinião com franqueza e intrepidez, é arrogante e presunçoso. Se cita factos sem commentar, não se atreve a declarar seus sentimentos (...). (sic)”

O trecho acima faz parte de artigo publicado em jornal, na Valença do distante ano de 1864. Sob o título “Apuros do Jornalista”, registra o secular desconforto provocado pela atividade jornalística no interior. Mas o que parece fruto de um tempo remoto, revela-se incrivelmente atual. Descortina nosso drama rotineiro, em pleno 2012, de suscitar insatisfações, suspeitas e cobranças constantes, sobretudo de atores envolvidos no processo político. Em alguns casos, porque deixamos de enaltecê-los em ações normais, fruto de suas obrigações óbvias, em outros porque noticiamos o que lhes fragiliza posições e, em outros mais, porque não lhes damos espaço para sua opinião sobre qualquer coisa. Ou sobre nada, também tem. Uns, ainda, se ressentem porque não embarcamos nas suas pretensões de última hora. E porque não os ajudamos a construir sua frágil liderança, ou em intenções de desconstituir instituições a que almejam galgar.
Neste cenário, de verdadeira guerra de lamuriosas declarações e de infelizes atitudes, somos frequentemente espetados por insinuações. Situacionistas e oposicionistas são unânimes em acreditar que beneficiamos o outrem em detrimento deles próprios, numa cansativa falta de imaginação. Incapazes de julgar a verdade absoluta da questão que, das duas uma, ou a provável incompetência dos profissionais de comunicação envolvidos neste processo, ou a provável ignorância dos atores políticos insatisfeitos em como se dá e como se constrói o processo de comunicação profissional e com foco no leitor e não no eleitor. Uns apostando que poderíamos ou deveríamos omitir assuntos e pautas de difícil digestão e outros acreditando que deveríamos ou poderíamos incensá-los à glória do simulacro ou do factóide, quando pouco ou nada dizem a que vieram.
Enganam-se aqueles que ligados ao atual governo consideram que o jornal quando expõe as demandas dos bairros visa sacrificar a competência administrativa do prefeito. Expomos, na verdade, o resultado de anos de omissão da máquina administrativa que, historicamente, aderiu ao clientelismo sem medir consequências. Além disso, expomos de forma contundente aos olhos daqueles que nutrem a ideia aventureira de se candidatarem a cargos públicos a tamanha e inesgotável montanha de problemas que lhes espera, tornando a atividade de falar e criticar fácil diante do descalabro construído por décadas de irresponsabilidade.
Da mesma forma, enganam-se aqueles que pensam que o jornal se pauta por contratos e relações comerciais. É claro que boas relações sempre permitem a aproximação e o diálogo, mas de forma alguma fecham as portas ao contraponto e a opinião divergente. Reiteramos que a oposição é sadia e como tal terá espaço no nosso jornalismo quando for efetiva produtora de fatos relevantes. Não somos e nem seremos microfone de rádio, onde acostumou-se a despejar levianas posições e estratégicas imagens. Atuamos com pauta e apuração a serviço, efetivamente, dos leitores que são nossos consumidores e a quem devemos satisfações. Portanto, não nos cabe a tarefa de inflar egos ou bajular pessoas. Definitivamente, promoção pessoal, repetimos, é em outro departamento: o comercial.
Em tempo. O redator de 1864, com o qual nos solidarizamos, era o coronel João Rufino Furtado de Mendonça.