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As cidades comemoram seus aniversários

por Redação
As cidades comemoram seus aniversários. Rio Preto o fez com a realização de sua tradicional Exposição Agropecuária. Valença foi de Feira da Cultura e desfile escolar temático. O momento de ufanismo costuma empolgar governantes e satisfazer a juventude, com a “cultura” dos shows, noite adentro. No entanto, todos os anos, deixamos escapar a chance de refletir e repensar o que nos trouxe até aqui. A data que tanto serve como pretexto para festa e auto afirmação de projetos políticos, bem poderia ser, pretexto para, à luz de nossa própria história, fazermos constatações que nos levem ao reencontro de nossa identidade, considerando sermos, no presente, descendentes de outros ideais e herdeiros de outros atos.
No entanto, é cada vez mais gritante nossa desconexão com a história de nossas localidades. É impressionante o abismo que se aprofunda, entre cada nova geração, com nossos vínculos históricos. De quem viemos? Por que aqui estamos? São perguntas básicas que se respondem, descompromissadamente, à mesa, na varanda ou na reunião de família. Para estas temos respostas simplórias. Mas, porque, então, não nos aprofundamos nas perguntas sobre nossa rua, nosso bairro, nossa vila, nossa cidade, nosso quadro político, nosso quadro econômico, nossa condição social, nosso presente e nossas vinculações, em produtivo festival de por quês? Teríamos desaprendido a perguntar ou cansamos de não obter respostas? Por que, no que tange a nossa história, nos acomodamos com as leituras superficiais e as verdades absolutas e imutáveis?
As comemorações, festas e pontos facultativos satisfazem o espírito da grande maioria, mas servem, adiante, também, para amolecer caráteres imbuídos da sensação de que estamos em dia com as causas que nos trouxeram até aqui. Não estamos! E, por assim ser, mantemos, ano após ano, as amarras do passado que, ainda vivas em nossa história, mas submetidas ao silêncio, nos mantém presos a energias medíocres, atitudes hipócritas e a atos covardes – tudo pautado no passado mal resolvido que não se extingue, segue pendente. E temos razões para crer que, só por meio da discussão clara, ampla e franca de nossa história, nos será permitido a liberdade para crescermos enquanto sociedade, Estado e Nação. Ou vamos continuar a pensar e a reproduzir as idéias de que nada devemos aos indígenas para quem a Aldeias de Valença e a de Conservatória foram criadas? Ou, que nada devemos aos milhares de seres humanos que aqui foram escravizados e, por esta condição nas fazendas e vilas, maltratados, açoitados, discriminados e sempre humilhados? Ou ainda, os inúmeros estrangeiros, que aqui foram tratados com certa indiferença, distanciamento e preconceito, a ponto de nenhuma tradição de suas culturas terem aqui florescido? Ou, por fim, as inúmeras crianças, mulheres e homens que empregaram suas energias no engrandecimento da fortuna fabril, a custa de suas saúdes e de suas forças? E o que dizer do triste fim da Central do Brasil e a retirada dos trilhos aqui colocados com tanto esforço, suor e sangue? E como absorver, os traumas das violentas fatalidades varridas para debaixo do tapete de respeito às famílias? Fatos como o cruel assassinato do liberal Manuel Pereira, pelos conservadores Fortes de Bustamante, em Rio Preto. Ou ainda, em Valença, dos atos que finalizaram as carreiras do deputado estadual Ludovico Cosate e dos prefeitos Oswaldo Terra e Luiz de Almeida Pinto. Será que as feridas estão devidamente fechadas?
Estes fatos, mais que contrariedades e decepções, causaram dores incomensuráveis. E eis que sendo dor contida, reprimida e disfarçada, pois que mal resolvida, ainda, é sentida. E neste tempo todo, geração a geração, somatizamos no inconsciente coletivo de nossas comunidades, a dor, a culpa, a raiva e o ódio. E, enquanto não expurgarmos estas dores de nossos peitos, dificilmente, seremos capazes de comemorar qualquer data com efetiva felicidade e orgulho. Precisaremos, antes, romper as emoções represadas e numa oportunidade como essa, em nome de nossos antepassados, de nós e de nossos filhos, pedirmos desculpas a quem aqui fizemos e fazemos tanto sofrer por indignidade, exploração, injustiça, preconceito, dolo, covardia e violência de todo tipo.
Nossas mais sinceras desculpas, pois, somente assim, - livres, leves e soltos - estaremos aptos a crescer na liberdade, com dignidade e plenitude. Feridas cicatrizadas, cidadãos conscientes de como chegamos aqui. Viva a História!