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Mais um Carnaval

por Redação
Mais um Carnaval para nos convencer que algo ainda precisa ser efetivado.  Em que pese todos os esforços do poder público em satisfazer a população de todas as possibilidades e recursos a favor da folia, ainda ficamos com um gosto, de que o investimento não produz plena satisfação.  Pelo quinto ano consecutivo, o Jornal Local se fez presente nos preparativos, na antecipação das programações de Valença, Rio das Flores e Rio Preto, com ênfase natural na primeira cidade. A nosso ver, há diversos equívocos sendo reproduzidos, ano após ano. O primeiro deles é básico, diz respeito ao conceito da festa que perde a cada ano em originalidade ao preocupar-se em embasar nossa festa a de outros centros. Assim, importamos, sistematicamente, o Carnaval de shows, nem sempre de samba, que sufocaram o Carnaval dos clubes, e continuamos a sustentar o discutível Carnaval de escolas de samba e blocos de enredo, que focados no deslumbre da rua Marquês de Sapucaí, ficam muito a dever na avenida Nilo Peçanha. Mais uma vez, nos dispusemos a prestigiar tais desfiles, convencidos por seu apelo popular, tão bem simbolizado pelo grande número de pessoas de todas as idades que, chova ou faça sol, se postam, desde bem cedo, ao longo da avenida. No entanto, a resposta, em que pesem as exceções de brilho das agremiações do Cambota, do Dudu Lopes, da Biquinha e do Monte D’Ouro, não foi das melhores. Para desapontamento do público, no domingo, ápice do Carnaval de desfiles, em Valença, tivemos uma escola desistente e desclassificada e um incompreensível atraso que fez com que o desfile de quatro escolas acabasse depois das três horas da madrugada de segunda-feira, em total desrespeito ao público.
Os shows foram de qualidade cultural indiscutível, porém, de certa forma, pouco diziam respeito ao Carnaval, já que o que mais se aproximou da festa foi o grupo Araketu de raízes fincadas em Salvador. A confusão cultural ainda apresentou outros shows “doentes do pé”, que cairiam muito bem em qualquer época do ano, mas que no Carnaval de Valença ficaram devendo verdadeiro show de samba a dignificar nossas raízes afro-descendentes. Também a arena escolhida para tal atividade, apresenta-se em muito superada, seja em espaço, seja em bom senso. Evento cujo viés diz respeito à aglomeração de pessoas, o palco na subida da Catedral, além de violentar um sítio nobre e central da cidade, não tem gerado, já há algum tempo, conforto para os seus espectadores e foliões. Evento de multidão, mais que pede, exige espaço de circulação e comodidade. A continuarmos nesta tradição autofágica dos shows de multidão pela madrugada adentro, havemos de encontrar um lugar melhor para tal.
No Carnaval de rua, destaque para as iniciativas voltadas para a autenticidade e independência dos blocos de embalo. Uns mais profissionalizados e mercantilizados pela venda de abadás e farta e, muitas vezes, indiscriminada distribuição de bebidas; e, outros, como deveriam ser as farras construídas no espírito de brincar como do “Pé na Bosta”, em Valença, e do “Bloco do Caixão”, em Rio Preto.
Nos desfiles de blocos de enredo e escolas de samba, o esforço das comunidades, apesar de uma perceptível, porém tímida, renovação, está patente, ressente-se de maior participação da juventude. Infelizmente, as agremiações, por necessidade ou imposição não contestada, continuam fundadas, em sua maioria, sob a liderança de um personagem ou de grupo reduzido de diletantes. A falta da prática democrática e aberta, tal qual em nossas agremiações partidárias, talvez explique o distanciamento que tornam a experiência carnavalesca, por mais das vezes, esvaziada e esquálida caracterização de comunidades muito maiores do que aparentam apenas ser na avenida das ilusões valencianas. Quem sabe em 2013, a gente se redimi.