Reflexões
Editorial
por RedaçãoEntão passemos as reflexões.
Quando o benemérito José Fonseca, no final da década de quarenta, idealiza um novo espaço para a saúde valenciana, seu projeto era dotar a cidade de uma moderna e espaçosa maternidade. A grandiosidade do projeto, no entanto, convenceu os homens da época posterior à morte do comendador Fonseca, a transformar o ideal em hospital geral, incorporando o Hospital Alzira Vargas do Instituto Valenciano de Assistência Social, então existente, onde hoje está a Faculdade de Odontologia. Com a derradeira crise, a gestão municipal oferece, à Santa Casa, a volta às origens com a implantação da Rede Cegonha. José Fonseca, mais uma vez, estava certo e bem à frente de seu tempo.
O projetado hospital, além dos volumosos recursos de José Fonseca, para ser terminado contou com outros recursos governamentais e oriundos das ações de provedores que tudo fizeram para inaugurar o hospital. Portanto, é claro, o hospital pertence tanto à Mitra Diocesana, quanto à comunidade de Valença. Para ser justo, consideramos que seu pertencimento cabe mais a esta do que àquela, seguramente.
As Santas Casas foram criadas para atenderem a um outro tempo. Sob os auspícios da Igreja, eram mantidas pelos ricos, visando o atendimento aos pobres. Modelo instituído no século XIX, quando abastadas carteiras supriam as necessidades da sociedade de ideais cristãos. Mas as tais carteiras, não só cheias, mas benemerentes e solidárias, chegaram ao fim, e a de José Fonseca foi, seguramente, em termos de volume e disponibilidade - a fundo perdido -, a última de Valença. Com a eminente crise de benemerência, recai sobre o poder público a obrigação de prover a saúde no país. Nada justificaria, então, a manutenção do modelo de provedoria que não mais provê, somente vive com o pires estendido a buscar cobrir os rombos de um sistema sabidamente ingrato.
Neste ano, após intervenção do bispo diocesano, o atual provedor assumiu com ares de saneamento e chegou a posar de salvador da pátria, para logo em seguida adotar o mesmo discurso anterior, de culpar governos e instituições. Recebeu adiantamento de aluguéis da Secretaria de Saúde, continuou a receber outros recursos e captou um volumoso empréstimo com a promessa de solucionar o impasse das certidões. Por outro lado, as soluções do gestor da Saúde pública são refutadas e nenhum projeto de refundação do hospital geral é apresentado. A solução que se quer é conhecida e o atual provedor em nada diferiu-se dos anteriores. Deseja que a Saúde municipal provenha com recursos a fundo perdido, tal qual faziam os barões do café e, por último, José Fonseca. Mas os tempos mudaram.
Por fim, causa-nos estranheza a letargia que se apoderou da instituição que assiste atônita e sem reação as decisões tomadas, em nome de toda uma Irmandade, por uma única cabeça, aparentemente, em nome do bispo. Não deveriam os irmãos da Santa Casa, os primeiros a serem comunicados ou consultados acerca de tão grave decisão? E quanto as propostas da Saúde Municipal, não deveriam ser expostas a Irmandade? Ou há mais algum caroço neste angu, que não cabe à sociedade, neste momento participar? Ou pior, por que tanto se apegam ao superado modelo e refutam soluções deste tempo? Será só opção pelo modelo provado e comprovado que não mais funciona, ou será apego à liberalidade de manejar recursos em nome de objetivos enquadrados no século XIX, sob a beneficente e filantrópica marca Santa Casa?
Ainda como registro, digamos de passagem, que se hoje Valença possui o Hospital Escola da Faculdade de Medicina e o Hospital das Clínicas Marquês de Valença, muito se deve à Santa Casa de Misericórdia. No primeiro caso, depois de acolher as necessidades iniciais da escola de Medicina, a imposição de contínuas restrições, tão bem simbolizadas pela construção de uma rampa externa para acesso de alunos, praticamente obrigaram a Fundação Dom André Arcoverde à construção de um novo hospital. Por sua vez, a falta de um projeto que açambarcasse a iniciativa da cooperativa médica, tal qual a parceira que demandaria qualidade do atendimento particular, intuiu àquela a necessidade de fundar seu próprio hospital, que se instalou na antiga Clínica Boavista. Graças à Santa Casa, portanto, Valença se tornou o município com uma das maiores relações população/leito do Estado do Rio de Janeiro, o que tornou obsoleto até mesmo, como estamos experimentando, os ensaios de crise final, já que mesmo que feche em definitivo o Hospital Geral José Fonseca, a Saúde Municipal garante atendimento nos outros hospitais.
Somos pelo diálogo e pelas luzes que alimentam transparência e intenções verdadeiras. Não acreditamos em ideias mirabolantes, assim como também não damos crédito a ideias que conservem o impasse, o atraso e a inoperância. Somos pela liberdade. Liberdade dos funcionários aprisionados por um sistema de relações falidas. Liberdade de usuários de uma rotina que insiste em manipulá-lo, para interpô-lo a uma queda de braço sofrível e desnecessária. Liberdade da instituição para que possa preservar intacta sua vitoriosa história, longe da política, do autoritarismo e dos interesses escusos. E liberdade para os gestores públicos da Saúde para que possam, enfim, prover com saúde de qualidade todo município de Valença, prestando-nos contas de seus atos e de suas ações, em prol de toda população, agora irmanada no anseio de dias cada vez melhores.
