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Vamos abolir os doutores

por Redação
“Doutor não é forma de tratamento, e sim título acadêmico. Evite usá-lo indiscriminadamente. Como regra geral, empregue-o apenas em comunicações dirigidas a pessoas que tenham tal grau por terem concluído curso universitário de doutorado. É costume designar por doutor os bacharéis, especialmente os bacharéis em Direito e em Medicina. Nos demais casos, o tratamento Senhor confere a desejada formalidade às comunicações”.
(Fonte: Manual de Redação e Estilo da Presidência da República Brasileira)

A atividade jornalística vivencia o convívio social de uma forma, digamos, sui generis. Por conta de nossas apurações diárias, tomamos contato, invariavelmente, com toda sorte de profissionais. Na montagem das matérias, buscamos sempre nos socorrer do conhecimento de causa, do conhecimento de especialistas por formação e experiência. Via de regra, os identificamos pela referência profissional. Assim, por uma questão de estilo e padrão, evitamos designar os personagens de nossas matérias com o gratuito título de doutor. Trata-se de uma questão de coerência, bom senso e evolução.
Por outro lado, resquício de outros tempos, herança da supervalorização da minoria salvadora ou alvissareira de graduados num panorama de maioria analfabeta e praticamente miserável, os nossos doutores foram construídos, em geral, do status que distancia e nem tanto da evolução do estudo e da especialização. Estamos aqui falando de um tempo remoto que remonta séculos passados, tempo em que a graduação estava ao alcance apenas dos que tinham poder econômico para alçar seus filhos aos cursos superiores no exterior. Coimbra, Oxford, Paris e depois Rio, Salvador, Recife e São Paulo eram os destinos obrigatórios para se fazer um doutor. As opções de formação eram poucas. Além das clássicas Medicina e Direito, o jovem afortunado ainda poderia se inclinar para a carreira militar e a tradicional Escola Politécnica, tradicional formadora de nossos primeiros engenheiros. Destas três profissões, nasciam os nossos eméritos doutores e no caso da terceira o título camuflava-se, ainda, na patente militar.
Com a República e a maior democratização da educação e consequente dinamização do ensino superior, que viu consolidarem-se outras carreiras profissionais, para suprir necessidades de um mercado de trabalho cada vez maior, especializado e exigente, amplia-se o acesso ao ensino superior. No entanto, por tradição, vaidade, ou arcaica ideia de supremacia, ainda nos dias de hoje, médicos e advogados apreciam e até exigem, fazendo questão, que o cidadão comum, cliente ou não, o afague com a palavra “doutor”, antes de seu nome. É comum e, por ser assim, nos acostumamos a reproduzir década a década o signo que, de cá pra lá, só quer significar o secular respeito entranhado em nossos genes. Deste modo, esta deferência automática, que, na verdade, deveria designar aquele que foi além e defendeu tese de doutorado, é usada aos borbotões nos hospitais, clínicas, consultórios, escritórios, delegacias e fóruns sempre com o objetivo de, senão distanciar por excesso de respeito do necessitado de seus préstimos, para bajular ou se diminuir diante de um iluminado detentor de poder.
Em termos de imprensa, a informação que interessa é a objetiva, ou seja, a profissão do interlocutor da informação. A deferência, seja ela respeitosa, bajuladora ou imodesta, soa-nos tal qual os títulos de nobreza: irrelevante alegoria, diferente de patentes militares ou cargos de direção que acrescentam dado informativo.
Por convenção de redação e estilo, e, agora, para se evitar situações que possam gerar mal estares, bem como para firmar posição contrária aos exageros que se sucedem século XX afora, aboliremos, definitivamente, o título de doutor (a) antes dos nomes de médicos, advogados, juizes, delegados, e também de dentistas, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, nutricionistas, psicólogos e portentosos empresários que, de um tempo para cá, já adotam a alcunha com a clara intenção de serem tanto quanto os outros... “doutores”.
E quem tiver mestrado e doutorado, favor não se intimidar informando aos nossos repórteres e colunistas para o justo registro.