A dor de dente
por Aloisio de Melo MoraisPelo sim ou pelo não, o fato é que o sofredor queria se tratar com o dentista rio-pretano e pronto! A notícia correu estrada. Em Rio Preto o povo tomou conhecimento de que o homem tinha mais de uma semana que gritava de dor. Por mais que os dentistas do seu lugar de origem quisessem tratá-lo ele não aceitava.
Uma pequena multidão foi para a estação de trem esperar, no dia marcado, o homem chegar. Todos queriam vê-lo. Essa curiosidade mórbida, de gostar da desgraça alheia é inerente à personalidade humana, embora muitos de nós não a admitamos. O certo é que muitos curiosos esperavam a dor chegar.
Enfim, a Maria Fumaça parou na plataforma e o pobre coitado saiu de dentro do vagão de passageiros. Ele estava com um enorme lenço amarrado ao rosto, por debaixo do pescoço à cabeça, então preso por um nó com duas pontas. A cara do sujeito estava avermelhada e enorme. Quase não se viam seus olhos em meio ao inchaço.
Duas ou três pessoas acompanhavam o indivíduo que mal se mexia, tanta era a dor que devia estar sentindo. Parentes de Rio Preto também o esperavam na estação. Dali eles foram direto para o gabinete do dentista. Os curiosos, ainda por querer saber do desfecho da situação, foram atrás da pequena comitiva que acompanhava o doente.
Duas, três, quatro ou cinco horas se passaram com o paciente e o dentista fechados em seu gabinete. Não se ouvia um barulho sequer. Um grito do homem que fosse, capaz de dar um motivo para os curiosos fazer comentários. Esses guardiães da desgraça alheia queriam que o desfecho fosse o pior possível, por isso não admitiam aquele silêncio sem a dor.
Foi então que a porta do consultório abriu-se, o dentista apareceu e falou:
- Quem aqui é parente dele.
- Eu – respondeu um dos que estavam assentados.
- Por favor, o senhor poderia entrar – mandou o dentista.
Do lado de fora aumentava a curiosidade dos fofoqueiros. Muitos dos que estavam ali já tinham até encomendado sanduiche ao restaurante. Sair do local sem ver o final seria a última coisa que fariam.
Prá encurtar a história: num certo momento o homem e seu parente saíram abraçados e sorrindo. Por incrível que possa parecer e acreditem se quiser: o doente não tinha a cara inchada e nem sentia mais dor de dente. E não me perguntem o nome do dentista e nem o que ele fez para curar o coitado que eu não vou saber responder.
