A fossa
por Aloisio Melo Morais- Ô Aloísio, ele está na fossa.
Sem saber o que falar depois dessa resposta, confesso que fiquei muito preocupado com o que teria acontecido ao Maia. Não me restou outra opção a não ser desligar o telefone. Minha cabeça foi a mil. - O que será que levou o Maia a entrar na fossa? – pensava, em meio à tristeza.
Pelo que conheço dele é o sujeito mais zen da face da terra. E olha que já tive muitos amigos parecidos com ele. Tinha um que era desses que nem sapato de couro usava por se tratar de origem animal. Esse tal era tão exigente, que punha nos pés sandálias de pedaços de pneus (só que ele se esquecia de que o pneu vem da borracha que, por sua vez, vem da seringueira que, por sua vez, é um vegetal e que, portanto, seu uso contraria também a tese de preservação da natureza...).
Mas o Maia que eu conheço aqui de Rio Preto, morador do segundo andar da Rua Larga, não é um desses, contraditórios e radicais “Homens Zens. Até onde eu saiba, o meu amigo morador defronte à Rua do Fórum é daqueles que não come carne vermelha (de jeito nenhum...). Mas, que gosta de uma branquinha...
Sim, a dieta do meu amigo macrobiótico é composta de vegetais e carnes brancas. Aliás, que o diga sobre isso a sua esposa Josemara que sabe, como ninguém, preparar as apetitosas comidas do meu amigo: salmão, tilápia ou outros filés de peixes assados com batatas e berinjelas (tudo ao forno com muito azeite e alho). Com todo esse zelo, o único defeito do Maia - como o meu - é gostar de tomar umas cervejinhas.
Além de se alimentar bem, ele é um sujeito tranquilo, não apenas pela paz que lhe traz a ioga. Ele também é dos poucos privilegiados brasileiros que pode desfrutar de uma merecida aposentadoria por longos anos de trabalho prestado ao nosso país. Maia é daquelas pessoas que, pelo seu jeito lhano soube, durante anos, exercer bem o difícil ofício de escrivão em Fórum.
Só ele é que pode dizer o que é essa função espinhosa em cartório da Justiça, em que tem que estar vivendo constantemente sobre um fio de navalha. Ele que o diga sobre o que é conter e apaziguar ânimos exaltados de juízes em face de desejos quase impossíveis de advogados!... Então, por mais que eu procure motivos, não consigo encontrar aquele que possa justificar a atitude do Maia de ter entrado na fossa.
- É uma pena que ele esteja nessa! - volto a lamentar, chateado. Mas, enfim, o que fazer se a vida há de continuar, não é mesmo? Desanimado, prometi que no dia seguinte iria visitar o Maia em seu sítio, em Parapeúna. Minhas duas filhas, Clarice e Maíra estavam em Rio Preto me visitando e resolvi levá-las comigo.
Bem cedo, naquela bela manhã de domingo, rumamos os três para ver o Maia. Cheguei em seu sítio meio cabreiro e desconfiado. Imaginei que o encontraria macambúzio e sorumbático. Ao meu primeiro sinal, ainda na porteira de entrada, ninguém apareceu. Fui entrando e cheguei até ao seu chalé, onde gosta de ficar. Também ali não havia ninguém.
- Quem sabe ele não estaria lá em cima, onde faz a sua casa? – disse para as minhas filhas. Pusemo-nos a subir, devagar pelas escadas de pedras, em meio às gramíneas exóticas do solo. Enquanto caminhava, mostrava para elas as árvores frutíferas e ornamentais que o meu amigo plantou para o nosso deleite de vê-las verdes, cheias de frutas e sabiás.
Pois bem, chegamos ao alto e eis que encontramos o Maia. Realmente ele estava na fossa, junto com os pedreiros, João e Nuno. Os três estavam mergulhados literalmente na fossa, no chão e ainda por terminá-la em construção. Sem que saísse do buraco, o Maia (Luiz) começou a nos explicar como funcionaria o aparelho feito de tijolos, britas e canos.
Enquanto ele explicava o funcionamento da fossa séptica, eu lembrava do meu telefonema para a Josemara...
