PUBLICIDADE Assine Anuncie_edital

A garrincha

por Aloisio Melo Morais
Esta estória de hoje foi-me contada na semana passada pelo meu amigo José Luiz da Cunha, leitor desta coluna. Segundo ele, o seu cunhado, Renatão, é um pequeno produtor rural e “sofredor” que trabalha de sol-a-sol na roça, no Barreado, sem nunca ver resultado capaz de melhorar sua qualidade de vida”.
Mas, se por um lado a vida rural é dura, por outro, também tem suas compensações, “essas então, é que não dão dinheiro mesmo, mas nos diverte” - lembra José Luiz, também acostumado com o dito sofrimento no campo. Não é que o Renatão, tirando leite toda manhã no curral, arrumou uma amiga de todo dia para alegrá-lo e às suas vacas.
Essa tal é uma avezinha chamada de “garrincha”, ou “cambachirra”. Esperta, a bichinha pula de pau-em-pau, entra-e-sai de buraco em buraco. Não há pequenos insetos que fiquem impunes quando a safadinha aparece: come todos de bicada-em-bicada.
A danada gosta de fazer ninho em qualquer buraquinho que vê pela frente, ali dá suas crias o ano inteiro. E isso mesmo: ela choca durante pelo menos seis meses ao ano. Sua prole, geralmente, é de dois em dois filhotes, alimentados pelo casal no seu entra-e-sai do ninho.
Seu barulho é característico quando, semelhante ao ranger de quem limpa a garganta antes de cuspir. Só que no caso em tela, a nossa heroína dessa estória não joga cuspe fora: é só mesmo um sinal para avisar que está chegando. Lá pelas tantas, quando o mormaço do meio-dia toca galinha prá debaixo de pé de laranja é que a bichinha canta bonito.
Seu canto anima e anuncia o cochilo da hora. E foi num desses cochilos no curral, deitado em cima dos baixeiros do burro Paixão que o Renatão se viu acordado pelo canto da sua amiguinha. O velho tirador de leite, que sonhava, abriu uma fresta no olho e viu a garrincha entrando no buraco da enxerga, velha e surrada pelo uso no burro.
Então, Renatão ficou observando a avezinha, no seu entra-e-sai, quando trazia no bico um bichinho, parecendo uma minhoquinha. Nesse momento era uma alegria geral no ninho. Os filhotes abriam os bicos para comer a apetitosa refeição trazida pela boa mãe.
O velho produtor só não entendia era como o ninho sobrevivia diariamente à ida-e-volta do Paixão levando as latas de leite, há quase duas léguas, para o ponto do caminhão do carreteiro. - “Não é possível que a garrinchinha vai junto ...” - pensava Renatão que, no dia seguinte, constatou que a ave, durante toda a viagem do Paixão ao ponto do leite, ficava dentro do ninho a proteger os seus filhotes.
Prá encurtar a estória: não é que um dia, de tão velha a enxerga foi substituída por uma nova. Renatão já tinha se esquecido do ninho e tirou o catre surrado de onde ficava, pendurado no gancho da travessa do estábulo, e o jogou fora, num buraco atrás do curral, onde ficava o lixão.
No outro dia, bem cedo, ao chegar para tirar o leite, Renatão achou esquisito que no lugar da enxerga nova lá estava a velha, bem pendurada no gancho da travessa, enquanto a outra estava jogada no chão e toda suja de bosta de boi. - “Ué, prá mim eu tinha jogado esta merda fora!” - resmungou o homem, pegando o traste velho e o levando de volta para o buracão do lixo.
Essa cena se repetiu por uns três ou quatro dias mais, na semana. E, Renatão resolveu ficar de tocaia no curral durante a noite, prá ver se pegava o “escumungado que tá me passando prá trás” - prometeu prá suas vacas que ia se vingar “do mardito”. E não é que o homem deu mesmo um flagrante no impostor, ou melhor, na impostora.
- Não é mentira não - disse o  Renatão para o José Luiz:- Eu vi, com esses olhos que a terra há de comer, a garrincha carregando no bico a enxerga velha e a colocando no gancho da travessa do curral, no lugar da nova, jogada no chão.