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A queimada

por Aloisio Melo Morais
As queimadas que se espalharam na região de Rio Preto, nos últimos dias, incendiando matos, pastos e matando animais, fez com que eu lembrasse de uma estória contada pelo velho e bom Braz, lá do Funil. Que Deus o tenha em seu melhor lugar do céu, alegrando santos e anjos com seus causos.
Foi há muitos anos, quando eu andava pela casa dos trinta e poucos anos. Braz, numa noite, à beira do clarão do fogo do seu fogão, falava prá nós, infantes e jovens maravilhados pelo Funil. Sempre o procurávamos em sua casa na vila para ouvir suas estórias, assim:
- O fogo tinha queimado um bom pedaço de mato perto da Tiririca (mata virgem). Quatro ou cinco dias após a tragédia, meus dois cães onceiros deram prá chorar, espremido que nem gago em beira da morte, chamando por socorro.
Todos nós atentos, sem piscar escutávamos o velho. De vez em quando a gente bebericava uma branquinha, enquanto o frango ia aos poucos cozinhando. Uma vez ou outra, Braz levantava-se do banquinho e remexia o penoso na panela. Era a única hora que suspirávamos:
- E aí, Braz, era onça?
- Sim. O fogo tinha queimado tudo em volta da toca. E foi prá lá que os meus cachorros foram para choramingar à beira da furna escura. Junto comigo tava também o Dico, meu amigo farmacêutico e dono da Tiririca.
Num breve parêntese o Braz parou sobre a onça e começou a contar as vantagens dos seus dois cachorros onceiros Lang e Vert, descendentes de cão americano cruzado com cadela alemã:
- Esses cachorros chegaram para mim filhotinhos, trazidos do Pantanal, do Mato Grosso. Eu os criei na mamadeira. Não foi nem preciso ensiná-los a caçar. Já na meia idade acuavam onça suçuarana aqui pelas redondezas. Só pela altura do choro deles eu sei o tamanho da onça que tão caçando - regozijava o velho acendendo o cigarro de palha:
- Mas, na beira da furna precisava decidir quem ia entrar com a zagaia para matar a bicha.
- Você entrou? – perguntou um de nós, quase que sabendo o que ele ia responder.
- Sim, sem confiança em si ninguém mata uma onça. Se vacilar, tremer ou mijar nas calças, é morte certa. O bicho, se perceber qualquer distração no nosso olhar pula e mata. Por isso, é que a gente tem que entrar na loca, sozinho e com muita fé.
Braz bebericou umazinha e acendeu o cigarro, já apagado. Hora boa prá uma pergunta, mas ninguém piou. E então o velho continuou:
- A ideia do Dico de colocar uma lanterna amarrada na ponta da zagaia foi muito boa. Á medida que eu caminhava alumiando o breu da caverna o cheiro de carniça aumentava, mas nada de ver a onça.
- E aí?
- Aí que eu alumiei dois baitas urubus comendo os restos mortais do meu gato angorá, que fazia mais de um mês andava sumido aqui de casa.