Arrependimento
por Aloisio Melo MoraisComo hoje, também em Parapeúna havia muitos pássaros pelas suas poucas ruas: pássaros pretos, canarinhos da terra e periquitos verdes. Não podemos esquecer da matinada que faziam os pombos que moravam no telheiro da Casa Barbosa, cuidados com muito carinho pelo Miguel Barbosa, próspero comerciante que tratava das aves por sua própria conta.
A grande atração de Parapeúna era a Maria Fumaça puxando seus vagões de passageiros e de mercadorias. Nos horários de chegada e saída do trem era uma festa, que só terminava com o apito da máquina chegando ou saindo da estação. Não é demais lembrar que foi naquele tempo que o engenheiro Vasco Monteiro participou da abertura da estrada de chão para passar automóveis, ligando Rio Preto a Valença.
E não foi à toa a sua participação no empreendimento. Ele tinha motivo para isso, por ser o primeiro a importar um automóvel movido à gasolina. O veículo, um “fordeco” chegou de trem e desceu do vagão por uma prancha até ao chão. Depois vieram muitos outros veículos, como “Chevrolés, baratinhas, Ford-bigodes e os primeiros caminhões”.
Com o aparecimento dos carros movidos a combustíveis, as carroças e os carros de bois começaram a desaparecer. Pequenas estradas foram surgindo e as tropas de burros ou cavalos deixaram de descer as serras. As velhas cocheiras cederam lugar às garagens para os “fordecos”. Um dos primeiros a perder emprego foi o ferrador de cavalos Jorge Peão.
Mesmo com o progresso, Parapeúna não perdeu a sua graça e alegria. Mas havia uma pessoa que fazia da alegria motivo de brigas. Era o Gumercindo. Ele era um negro arruaceiro que punha em polvorosa a ordeira população de São Sebastião do Rio Preto: baixinho, troncudo, violento e forte. Sua especialidade eram os golpes de capoeira.
Num dos bailes promovido pelo “Minas e Rio”, na velha casa do negociante Isaac, lá estava assentado num dos bancos o “arruaceiro” - como era chamado o Gumercindo. Ele não fora convidado para o baile que, aliás, era só prá gente branca. Mas lá estava ele, tangido pelo pileque e cantarolando o samba “Dorinha, meu amor”, de José Francisco de Freitas. Assim era o refrão: “Dorinha, meu amor. Por que me fazes penar? Eu sou um pecador. Vivo só pra te amar”.
Como podia o arruaceiro viver fora da arruaça? Como podia ele estar ali sem aprontar uma? Não, isso não podia estar acontecendo. Pelo sim ou pelo não é que apareceu a polícia que retirou para fora da casa. A zorra foi total. Os quatro soldados não conseguiram parar em pé, pois Gumercindo os ceifava com rasteiras seguidas.
Foi até que apareceu um soldadinho moreno e magro, chegado de pouco de Valença. Gingando como o arruaceiro ele foi escapando seguidamente dos golpes de Gumercindo. De quando em vez acertava um chute ou um soco na cara do negro, até que o cansou. Atado a uma grossa corda o arruaceiro foi arrastado à estação do trem e ali embarcado à força para Valença.
Gumercindo, um dia voltou, curvado, cabisbaixo e triste. Refletia, naquele dia, para o povo de Parapeúna o seu arrependimento. No dia seguinte ele desapareceu para sempre, sem que ninguém jamais o visse novamente... (Adaptado da crônica “O Arruaceiro”, de José Antônio Tavares e Miguel Tavares, em “Crônicas Riopretanas”, editada pela Casa Levi, em 1998).
