Bacalhau à espanhola
por Aloisio Melo MoraisMas esse é um tempo que já se foi, sem nenhuma saudade. Mas, nunca é demais lembrar algum episódio ou história para servir de alerta às pequenas mentes no alvorecer de suas existências. Coronel Balduíno era desses que num deixava desaforo pra depois. Acostumado a lidar com bois ferozes, ele era, ao mesmo tempo, rústico e, digamos, um homem romântico, prá não dizer que era um comedor.
Era extremamente dependente da sua esposa, Penha, que por sua vez tinha uma personalidade forte e era muito ciumenta. Marido e mulher, ambos viviam na fazenda, onde o trabalho produzia fartura de alimentos e riqueza. Na cidade, o coronel mantinha uma casa, na maioria do ano fechada. Somente em épocas especiais, Balduíno aparecia com a mulher e a sua família para passar uns tempos na residência urbana.
Junto com ele vinham sempre alguns capangas, “prá resolver alguma pendenga” – dizia. Esses jagunços ficavam num rancho nos fundos da casa, sempre prontos prá qualquer precisão. E foi numa ocasião da Semana Santa que Balduíno e Penha apareceram. Depois de se instalarem ficaram sabendo da nova vizinha que alugara a casa ao lado, há vários anos desocupada por falta de inquilino.
Dizem até as más línguas que ninguém alugava a moradia por medo dos vizinhos. Verdade ou não, o certo é que Deocrécia, era uma viúva bonita e gostosona. Logo que chegara, o casal foi visitar a vizinha:
- Muito prazer – disse Penha, ao lado do marido “estamos às suas ordens pra qualquer favor. Vizinho é prá isso”completou.
- Muito obrigado, eu também estou às ordens.
Balduíno quis agradar:
- Que gataiada bonita a senhora tem. Quantos são?
- São treze e todos têm nomes de gente. Aquele ali é o Gastão, aquela ali é a Genoveva - respondeu a mulher, mostrando os gatos, uns deitados em cima da cadeira, outros caminhando por entre as belas pernas dela, às quais o coronel não tirava os olhos.
- Se a senhora precisar de alguma ajuda é só falar, viu Dona Deocrécia. É só me chamar...
A viúva viu no convite uma pitada de interesse do coronel e num ficou fora:
Claro, coronel, a gente sempre tá precisando, né?
No perceber a cantada, Penha puxou o marido pelo braço e tratou de despedir-se logo da mulher. Já em casa, Penha disse ao marido que naquela sexta-feira santa lhe faria uma surpresa:
- Vou preparar uma comida que você gosta muito, bacalhau à espanhola - disse, indo logo para a cozinha colocar o peixe na água pra tirar o sal. Mas nada do planejado aconteceu. No dia seguinte, ao ir pegar o bacalhau Penha encontrou um gato acabando de comê-lo. E era o dito bicho da vizinha. Num deu outra: Penha pegou o marido pelo braço e foi ao encontro da confinante:
- Olha aqui sua enxerida, um gato seu comeu o nosso bacalhau – gritava.
- Rosinha, Rosinha, eu já te disse prá não ficar por aí, na casa dos outros comendo porcaria - respondeu com rispidez a viúva ao chamar sua gata e bater a porta deixando o casal na rua.
- Num tem importância, querida, eu mando meus home pegar outro bacalhau no rio – dizia Balduíno prá mulher, tentando amenizar a sua ira.
