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Chuva de Rosas

por Aloisio Melo Morais
No ano de 1925, quando Dom André Arcoverde tomou posse como primeiro bispo da diocese de Valença, só havia em São Sebastião do Rio Preto, hoje Parapeúna, uma pequena e humilde capelinha, em ruína, de um pequeno cemitério, naquela época já desativado. Naquele lugar só havia os fogos fátuos assustando a meninada que por ali brincava.
Do lado de Minas, uma portentosa igreja matriz, construída pelos escravos, tinha e tem como padroeiro Nosso Senhor dos Passos, enquanto em Parapeúna, nem igreja e nem padroeiro havia. Um ano antes (1924), uma jovem freira, carmelita de Lisieux, na França, fora canonizada santa, com o orgulhoso nome de Santa Terezinha do Menino Jesus.
A nova santa inspirou os parapeunenses que a adotaram como padroeira do distrito. Uma pedra fundamental de uma igreja foi lançada, em dia festivo, em Parapeúna, pelo novo bispo Dom André Arcoverde. Leilões foram organizados num galpão nos fundos da antiga casa do Major Bahia, avô materno dos irmãos Miguel e José Antônio Tavares. Na sala de visitas da casa funcionava a capela provisória para as celebrações das missas.
O leiloeiro era Elpídio Alves (Pio) que leiloava frangos e cartuchos de doces ao som da radiola tocando chorinhos. Havia o Pinha Mello e o Olavo Monteiro, jovens galãs, estonteando com seus flertes as moças. A nova igreja de Parapeúna precisava ser edificada e, por isso, todo o esforço de arrecadação de recursos financeiros era muito bem vindo.
Entre os vários leilões, além do Pio, havia também o da “Preta Felicidade”, uma mulher atuante e bem quista daqueles tempos. A população parapeunense e riopretana se esforçava para que o leilão dela rendesse mais que o outro. Mas, ambos andavam quase empatados em arrecadações (de quinze em quinze dias), de cem mil réis de renda cada um.
Dona Alice Tavares, também mulher atuante, pôs-se a perambular pelas ruas e casas da vila e da cidade de Rio Preto, à cata de donativos. Tudo valia a pena no sonho de arrecadar dinheiro para construir a nova igreja. Havia a promessa de uma milagrosa “chuva de rosas” que cairia dos céus, promovida por Santa Terezinha no dia da inauguração da igreja.
E foi assim, com muita ilusão, promessa e vontade de ver um novo templo em Parapeúna que, em 1931, foram desenterrados os defuntos do velho cemitério para ali começar a construção da Igreja de Santa Terezinha. Vasco Monteiro foi o engenheiro responsável pela construção. Júlio Godinho, um hábil pedreiro, apesar de muito doente - hanseníase - foi quem ergueu a igreja junto com seus ajudantes.
Em outubro de 1935 o novo templo religioso estava construído, em estilo moderno e dotado de atraentes linhas arquitetônicas para a época. No dia da inauguração, os romeiros chegaram em trens especiais, vindos de Valença e Santa Rita de Jacutinga. Na rua São Pedro, defronte a igreja dezenas de barraquinhas animavam a pequena multidão que se reuniu para o evento festivo.
Ao estourar, em 1936, a revolução franquista, na Espanha, o frei Antônio, primeiro vigário da Paróquia de Parapeúna, retornou para o seu país, onde foi ser diretor do Mosteiro Escurial. Ele sucedeu a padre Luna, que fora prefeito e vigário de Valença.
Coube ao vigário alemão, empreendedor e enérgico, padre Ricardo, consolidar a nova paróquia. Urbanizou a área adjacente à igreja, ajardinando e pavimentando o adro da igreja. Construiu o Salão Paroquial e um moderno pavilhão destinado aos leilões. A esperada chuva de pétalas de rosas caiu dentro da igreja sobre as cabeças dos devotos de Santa Terezinha de Lisieux. (Extraído da crônica de José Tavares, publicada em 1985 na “Tribuna da Serra”, de Valença)