Comigo não, violão!
por Aloisio Melo Morais- Não há bicho mais velhaco do que o urubu. Gosta de morar no alto de serra e, durante o dia, em alto de árvore, de modo que possa acompanhar a movimentação nos pastos em volta. Ele tem o péssimo defeito de comer umbigo de bezerro recém-nascido, prá desespero das vacas e dos fazendeiros – disse o contador de causos.
É verdade, bicheira braba no umbigo da criação é serviço do excomungado do urubu. O bicho preto tem mesmo parte com o demo. Não adianta que ele não come isca ruim de veneno posto em carniça. E se comeu um e morre os outros não comem.
- Lá está o peste, de plantão – aponta o Mário, como se estivesse vendo o bicho refestelado no galho alto do velho pau-d’alho. Entre tomar uma e outra no Restaurante Fundo de Quintal o velho contador continua a contar as mazelas da ave agourenta:
- A gente passa, passa mulher e menino, passa boi, cavaleiro passa. A gente dobra o corpo, joga pedra e o bicho finge de morto, mas sempre raciocinando: calcula o tamanho da pedra, seu peso e chega à conclusão que o petardo não vai chegar até ele. Mas, mesmo assim, por garantia, muda dois passos à direita do galho.
- Será mesmo que urubu é assim mesmo? – eu pergunto.
- Ele não só é assim, como é também maldoso. Às vezes responde aos passantes com um arroto. Sai todo mundo correndo de tão fedorento que é o desprezo jogado numa golfada só em cima da gente. Há outros urubus que mal abrem o bico num bocejo, fazem pouco caso da gente e repegam logo no cochilo.
Segundo Palmério a soneca do urubu do pau-d’alho é matreira. – Ele finge, mas tá mesmo é tomando nota de tudo que acontece ao seu redor, principalmente se na vargem tem vaca chegadinha a parir. A gente grita, xinga, sapateia, se desespera e berra os mais feios palavrões. Que o quê! Urubu nem cheirou nem fedeu, ficou no mesmo lugar.
E num é que é mesmo verdade tudo isso que o contador tá falando. Depois desse dia fiquei observando uma cena pitoresca de um urubu no alto de uma imbaúba. Embaixo, a vaca com uma peitaria enorme pastava, chegadinha pra soltar a cria no chão. De vez em quando ela olhava prá cima, prá medir o urubu, prá ver se ele tava olhando prá ela.
Ele fingia dormir. Foi então que apareceu o dono da vaca na porteira adiante. Viu a cena e voltou correndo prá casa. No retorno, o homem, já com a espingarda na mão, foi visto pelo urubu, que abriu os olhos e deixou-se cair do galho, espavorido. Num galeio, bateu as asas e voou. E não foram outras as suas palavras antes de voar que eu ouvi:
- Comigo não, violão! De pau de fogo não, não sou Bastião!
