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Dia do Meio Ambiente

por Aloisio Melo Morais
Em Rio Preto o 5 de junho, Dia Internacional do Meio Ambiente, não foi lembrado pelas autoridades. Foi um dia triste e sem foguetes. A administração local, que adora fogos, não organizou sequer uma festa mínima que seja, comemorativa à preservação do meio ambiente. Eis porque os bichos do oiti da Rua Larga viram na omissão uma razão, mais do que justa, para comemorar a data.
Além da pacífica população que mora no oiti vieram para a festa, em armistício de paz, do rio a cobra sucuri, das florestas, morros e várzeas as onças suçuarana e pintada, a cascavel, as iraras e o lobo guará. O veado-galheiro e o seu primo, o veado mateiro, também compareceram com as suas respectivas famílias de veadinhos. Nada ofuscou para eles o 5 de junho, dia de muita paz e amor em que ninguém podia comer ninguém (esse foi o acordo).
Enquanto pelos galhos do oiti havia muita alegria com os bichos se manifestando e se congratulando pela data, apenas o jabuti permaneceu enclausurado em seu oco. A seu contragosto foi organizada uma grande assembleia entre as confluências dos três grandes troncos que dão acesso aos galhos superiores da árvore.
Ali, na praça, foi instalado um enorme palanque para que os grandes chefes dos animais pudessem parlamentar com o público e depois acontecer os shows de música. A multidão entre insetos, aves, moluscos e as minorias discriminadas foi estimada em cerca de 1,3 milhão. O gambá, mesmo sendo proibido beber, apareceu cambaleando:
- “Fora o jabuti!” gritava, babando e exalando um cheiro horrível.
Para acalmá-lo apareceram os guardiães, dois filas enormes e que deram uns bons tabefes no bêbado, retirando-o de circulação, num carrinho de mão com sirene ligada e os cães empurrando apressados o malcheiroso.
O primeiro a falar foi um macho onça suçuarana, velho e cheio de cicatrizes de tiros de chumbo, marcas da violência humana:
- “Pelo Rio Preto inteiro (município) o que mais se houve pelas madrugadas e em fins de semana são os latidos dos cães americanos, nossos inimigos, e que avançam sobre nós para sermos agredidos a tiros por caçadores. Quando isso vai parar? “ vociferou o líder felino, sob os aplausos da multidão.
A segunda a discursar foi a coruja, uma ave experiente e de atitudes políticas independente, cujas palavras sempre foram respeitadas pela fauna riopretana. As comunidades feministas e discriminadas das favelas e bordéis da periferia do oiti, compostas por pulgas, baratas e mariposas maquiadas e de saias curtas gritavam histericamente, à frente do palanque.
- “Minha gente, quem pôs o jabuti em cima do oiti se ele não tem asas e não sabe subir em árvore?” – perguntou a ave, alto e em bom som, ouvida em toda o oiti, através das potentes caixas instaladas na praça. O que se seguiu às suas palavras foi um silêncio assustador da multidão.
Na verdade, a decepção com o jabuti é muito grande e ninguém assume publicamente a responsabilidade de tê-lo colocado no poder da grande árvore da Rua Larga. Terminados os discursos, os bichos saíram em passeata, gritando em uníssono: “Fora o jabuti! Fora o jabuti!...”. Enquanto isso, na prisão, se lamentava o bêbado gambá ao ouvir a passeata: - “Por que só eu fui preso?”.