PUBLICIDADE Assine Anuncie_edital

O peixe

por Aloisio Melo Morais
A sombra da tarde anuncia a noite. São mais de 18 horas neste horário de verão. As garças, em formação, sempre mais de seis, vêm pelo ar, por sobre o rumo do rio Preto. Na curva, em terras do lado contrário às da Fazenda São José, é que elas descem e pousam no bambuzal. Toda tarde é esse o espetáculo de quem vê as aves se ajeitando, como podem, por sobre os galhos, para ali passar a noite.
São centenas delas, todas brancas e charmosas, mas ranhetas, brigando muito umas com as outras. As que chegam, geralmente não são aceitas pelas que já estão acomodadas. Então, trava-se uma disputa verbal e agressiva por um lugar no bambu. Há um cacarejar, cujo som amplia-se, ensurdecedor, e que chama a atenção dos que caminham, como eu, pelo asfalto da BR.
Foi um pouco abaixo daquele local, na outra curva do rio Preto, que o Nelson (irmão do Moacir, pai do Breno) fez uma proeza, ainda lembrada e respeitada pelos pescadores riopretanos. Que Deus o tenha em bom lugar lá em cima, porque Nelson foi-se antes da hora. Já aposentado de pouco, ele veio para Rio Preto para curtir vida mais tranquila. Como ele mesmo dizia, “agora quero só água fresca, soneca na sombra e galinha prá espantar mosquitos”.
Deus não quis lhe dar esse gosto. Mas, como não estou aqui para julgar seus desígnios, é certo que bem sabido mediu o que fez.  Nelson, no seu auge de pescador, certo dia saiu calado, pelo lado da estrada do Estado do Rio e,margeando o rio Preto e, na direção da Fazenda São José, na tal curva, amoitou-se à beira da água com seu molinete. Ele caprichava na isca, lambari do rabo vermelho fisgado pelo lombo e nadando em largos círculos, um pouco abaixo do nível da água. Era prá pegar dourado.
A linha era sem chumbada para que o infeliz, agarrado pelo cangote, pudesse nadar com o maior desembaraço possível. Esperava o pescador que Isso pudesse atrair um grande peixe. Mas... nada! Nenhum veio nem prá cumprimentar o lambari. A certo tempo, porém, quando puxou a isca viu que ela tinha sido comida, mais uma vez, por baixo. Ou seja, o peixe velhaco sabia que o anzol estava por cima e o evitou mordendo na barriga do lambari.
“- Burro é quem pensa que peixe é burro” - comentou o pescador, resmungando e sem outra isca de carne viva prá tentar driblar o peixe em outra tentativa. Então, ele trocou o engodo para minhocuçu, essa para pegar piau. E havia conseguido comprar a isca de fornecedor da beira do Rio São Francisco, em Minas. Nem o Moacir sabia que ele tinha comprado, porque se soubesse tinha pedido, pois os dois disputavam quem seria o que pegaria o maior piau do rio Preto.
Era uma disputa saudável entre irmãos. Pois num é que quem pegou mesmo foi o Nelson. Bastou que jogasse na água o tal anelídeo fisgado ao anzol e pronto: um bruto peixe com fome comeu a isca.
Contou Nelson que a vara envergou e quase partiu-se: “dei linha e o peixe riscou o rio até a outra margem. No puxa e solta do molinete foi até que eu cansei o bicho. Devagarinho trouxe-o até à margem. Um bruto...” – contava Nelson. Lembro como se fosse hoje, quando ele apareceu, em Parapeúna, com o peixe. Na Casa Simões eles pesaram o piau. Se não me engano, pesou 7,2 quilos. Suspenso pelo braço do Nelson, o rabo do peixe batia na sua cintura.
Esse peixe, um dos maiores já pegos no rio Preto, ficou no freezer da casa do Nelson durante muito tempo. Ele se orgulhava de mostrar o seu troféu, principalmente ao seu irmão Moacir...