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O sabiá cantor

por Aloisio Melo Morais
Tomei conta o mês de julho inteiro pra ver se conseguia perceber qual seria a primeira sabiá a cantar perto de onde moro, na rua do clube, em Rio Preto. O esforço foi em vão, mesmo procurando ver nas várias aves que freqüentam o meu quintal (de cimento) onde ponho mamão e banana no chão. Elas são várias, umas mais folgosas do que as outras, mas todas esperando a mudança do mês pra começar a cantar.
Pois bem, chegou agosto e elas já começaram a cantar. Não são todas, ainda, que estão cantando, mas as que já estão fazendo é com a beleza de sempre. Tem uma então, meio de barbicha branca, como canta... Mas engraçado, tem uma que a acompanha que não canta. O interessante é que está sempre ao lado dela. Parece que já formam par para o acasalamento. É ... não sei porque andam juntas...
Mas essas duas sabiás me fez lembrar uma estória do Olavo Romano, outro sujeito desimbestado prá contar causos. Disse ele que o sujeito ia passando pela rua, no Taguá, quando ouviu, saindo de dentro de uma casa, o som de uma sabiá cantando. O canto era tão estridente e belo que o tal não se deu conta e foi entrando pela casa e, quando viu, tava defronte às duas gaiolas penduradas na parede da varanda do Sr. Raimundo.        
O Bastião não percebeu que tinha invadido a casa. Meio sem graça ele então procurou se desculpar: - Me a descurpe, mas sabiá bão leva a gente sem saber por onde anda. No que o dono da casa respondeu: - Num há de quê, seu Bastião, eu já conheço o senhor de nome e sei que é apreciador de canto de sabiá. Aliás já me falaram até que o senhor foi multado pela florestal de tanto sabiá que senhor tem na sua casa.
- Não sinhor, isso é mentira - disse o homem, querendo se escafeder da lorota do outro, mas que era uma verdade. Bastião era conhecido pegador de sabiá e não era para comercializar não. Ele gostava mesmo era de ver o bichinho cantando em suas várias gaiolas espalhadas pela sua casa: varanda, rancho, etc.
- Quanto o sinhor quer pela sabiá? - perguntou de estalo, não dando tempo nem do senhor Raimundo pensar direito. “Prefiro não vender. Não gosto de problemas com a polícia, o senhor sabe como é, né .... “ Que problemas que nada. Eu pago o que o sinhor quisé por esse bicho aí. Pago qualquer preço” repetiu.
Então o dono, já senhor da situação, respondeu: - E qual dos dois sabiás o senhor quer? De pronto o Bastião contra-atacou: - O que está cantando, claro? O outro num presta prá nada. Nem cantar ele sabe! Novamente o Sr. Raimundo ponderou: - Tá bão, eu vou vender, mas de uma coisa o senhor esteja certo: - Não aceito reclamação depois.
- E por que eu haveria de reclamar? - perguntou o Bastião, sem desviar o olhar do sabiá cantando pendurado na parede. O bicho era desatinado, não parava com o bico fechado. Parece que estava fazendo aquilo de propósito, só para impressionar. Havia naquilo tudo a  impressão de que tinha alguma coisa no ar além do normal. Era mais ou menos como se tivesse uma cumplicidade entre a ave e o dono, prá pegar a primeira vítima que aparecesse.
- Num sei não, mas acho que o senhor vai se arrepender de levar essa sabiá aí que está cantando. Por que o senhor não leva a outra que está ao lado, é uma sabiá calada, mas cheia de sabedoria. - Qual nada, eu quero é essa aqui e pronto. Quanto é o preço? - perguntou novamente o Bastião e, sem pestanejar tirou o dinheiro do bolso pagou e saiu porta à fora, com a gaiola na mão e o sabiá cantando sem parar.
Pois bem, ele foi prá casa e chamou a vizinhança toda prá ver o bichinho cantando. Mas quando falam que alegria de pobre dura pouco é também uma verdade. Já no segundo dia o sabiá diminuiu o canto. No terceiro foi a mesma a coisa, no quarto também e, ao final de quinze dias, já não cantava nada. Por mais que ele sacudisse a gaiola, desse comida e vitaminas especiais, e nada: o sabiá tinha emburrado de vez e fechado bico.
Desanimado de tanto insistir com o sabiá, o Bastião resolveu voltar à casa do Sr. Raimundo, não para tirar satisfação, mas estava curioso prá saber por que ele havia dito que ele se arrependeria da compra do sabiá. “O senhor por aqui?” - perguntou o homem. “Não vim reclamar, só quero uma explicação: - Quando comprei o sabiá o sinhor sabia que eu ia acabar arrependendo. Por quê?”
- Bem que eu avisei não foi? O senhor preferiu o cantor não foi? É que o outro sabiá, o mudo, é que é o músico e compositor. Ele é que inventa as músicas pro outro cantar.