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O sino

por Aloisio Melo Morais
Em tempos como agora, que a Matriz de Nosso Senhor dos Passos passa por uma restauração, nunca é demais lembrar que, ao seu lado, já existiu um campanário, que servia de sustentação para o sino. O aparelho, se assim podemos chamá-lo, era pesado e constituído de um metal sonoro, talvez bronze. Servia o apetrecho, como hoje, para chamar os fiéis para cultos na igreja.
Nesse tempo, o padre José Gomes ainda não havia mandado construir as torres laterais da matriz. Por isso, a razão da existência do campanário, de uns 10 a 15 metros de altura e de madeira, como andaime. Havia uma corda que pendia do sino, do alto até ao chão. Uma de suas pontas era nele fixada por um gancho.
Para fazer o aparelho soar, era preciso muita força por causa do seu peso. Poucos conseguiam puxar a corda, fazendo o sino tocar. Mesmo sabendo dessa dificuldade, a briga de muitos para puxar a corda era constante na sacristia da matriz. Era preciso que o padre elaborasse uma espécie de tabela, assim sendo possível atender a todos os fiéis que queriam tocar o sino.
Zeloso, padre José Gomes, constantemente, mandava alguém subir até onde ficava o sino para conferir se tudo por lá estava seguro e sem perigo de desabamento. Essa espécie de manutenção periódica era muito comum de acontecer, principalmente em vésperas de eventos religiosos. Não foi por acaso que fora feita uma rigorosa conferência do madeiramento, encaixes, pregos, parafusos, etc., no início daquela Semana Santa.
Era sexta-feira, dia da grandiosa procissão do Senhor dos Passos, morto e transportado pelas ruas de Rio Preto em um esquife. O momento requeria muita fé. O som triste e repicado do sino, se bem tocado durante o cortejo fúnebre, além da banda de música, era o que mais ajudava a compor o cenário de tristeza da representação da morte de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Pois bem, pelas ruas da cidade, a procissão caminhava como uma grande serpente luminosa se arrastando, efeito de luz dos fiéis andando, carregando nas mãos pequenas velas acesas em sinal de respeito. Enquanto isso, no campanário o sino repicava, às vezes falhando, o que ninguém entendia porque, mas sem se importar.
As falhas do sino eram causadas pela dificuldade que o tocador escalado para aquele dia, o Pedro Anão, tinha para puxar a corda. Ele se esforçava o quanto podia, agarrando-se à corda, tentando impulsioná-la com o seu pouco peso. Dava galeios e seus pequenos pés ficavam pendurados no ar. Todo o esforço valia a pena se o sino se movesse e seu badalo batesse forte nas bordas de bronze.
E foi num desses pulos no ar que o Pedro Anão fez com que o sino, lá em cima, desse uma volta completa sobre seu próprio eixo e o seu badalo se soltasse, despencando pelo ar. O desastre que se seguiu foi que a ponta arredondada da peça de metal caiu justamente em cima do dedo do pé do Mané Gomes, um dos fiéis que sempre brigava para carregar o esquife nas semanas santas.
Com uma forte dor e aflito, o Mané Gomes tentou entregar o andor do esquife para o seu companheiro do outro lado que, sobrecarregado, refugou. Então Mané Gomes, sem saber se acudia o dedão do pé ou se segurava o esquife, gritou:
- Me perdoe Cristo, mas esse “filha da mãe” do Pedro Anão vai me pagar, ah, isso vai!
Em Tempo: adaptação de crônica de Miguel Tavares, em Páginas Colhidas no  Tempo”.