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Omissão aos mortos

por Aloisio Melo Morais
Numa noite fria destas do inverno foram vistos centenas de esqueletos reunidos num dos cemitérios de Rio Preto. Quem viu a cena conta que uns estavam assentados em cima das tumbas, outros no chão, mas todos presos por atenção a uma reunião que acontecia àquela hora da madrugada.
- Quem viver verá do que somos capazes... – afirmava um dos ossudos e que parecia o líder, em pé e segurando uma longa foice. Com braço esticado, ele fazia ameaça apontando para frente, olhando para um ponto no infinito, no ar. Ao seu redor os demais o reverenciavam, feitos também de ossos, e que um dia já foram homens, mulheres e crianças.
- Queremos apenas respeito às nossas memórias, nada mais. – dizia, enquanto os outros, sem esconder a raiva, uníssonos, respondiam, batendo os pés e mãos, no chão e em cima das lajes das sepulturas abertas: - É isso mesmo, temos que reagir contra quem não limpa e nem preserva as nossas moradas.
Não foi difícil concluir que os restos mortais estavam se manifestando contra o descaso público em que se encontram os cemitérios de Rio Preto. Os ativistas têm razão. As autoridades que administram a cidade não têm se preocupado em manter limpos os campos santos da cidade. Esquecem-se de que um dia, ali também deverão ir morar.
Os que estão enterrados em nossos cemitérios deveriam merecer respeito e cuidados especiais por parte dos nossos administradores públicos. Quem visita regularmente os cemitérios sabe que não se dedica com constância, o mínimo que seja, somas de recursos financeiros públicos para as capinas, pinturas, reformas e plantação de flores.
- Vivemos na escuridão, faltam luzes para clarear os nossos túmulos. Os traficantes vêm para cá consumir drogas - alertava o esqueleto em seu discurso inflamado. A essa altura da reunião havia a presença maciça de centenas de manifestantes, não se distinguindo pela penumbra, entre eles, quais os de origem pobre, rica, ou de raça.
Muitos dos rebelados queriam que o grupo saísse em passeata pelas ruas da cidade, por isso trouxeram faixas prontas. Nelas, alguns dizeres que demonstravam bem a disposição dos manifestantes em conseguir da população apoio à sua causa: “Fora o prefeito’ - dizia uma. Outra: “Não, ao abandono”. Duas faixas destoavam da motivação da manifestação: uma dizia assim: “Queremos pão...”. E, uma outra, menor, levantada por dois esqueletinhos completava: “...com manteiga”.
À insensibilidade da administração municipal riopretana, que não está cuidando dos nossos cemitérios públicos, nós, cidadãos vivos nos insurgimos contra, e em defesa dos nossos mortos. Por isso, independente de posição política, devemos fazer “já” uma campanha cívica para melhorar as condições físicas e ambientais dos dois cemitérios existentes na cidade: o de “São José” e o de “Nosso Senhor dos Passos”.