Os especialistas
por Aloisio Melo MoraisVira e mexe chegava portador chamando pelo médico. Cada hora era para uma coisa e sempre para lugares os mais diferentes e distantes. Às vezes, de um lugar já seguia pra outro, passava dias sem voltar em casa. O costume era cobrar a consulta por légua viajada. Mas o Dr. Ramalho tinha um sistema bem peculiar: ele só cobrava de quem podia pagar. Então, fazendeirão pagava, empregado não.
Como naquele tempo carro era prá poucos, o nosso médico da história, não sei se verdadeira ou inventada, tinha no pasto uma manada de burros, quase todos sempre prontos para as viagens do doutor. Burro é animal resistente que aguenta tropeços, viagens longas e ainda por cima não cai no chão facilmente. Além disso, esses quadrúpedes farejam no ar o perigo e raramente prosseguem viagem quando ele é iminente. Se tiver onça no caminho, então o burro empaca.
Havia um burro da preferência do doutor Ramalho: era o Diamante. Era um animal manso, experiente, bom de boca e tinha um galeio macio que dava gosto de ver. Por ser o preferido do médico era o que mais viajava. Com o viajar constante, o Diamante foi ficando sentido e, quando o dono percebeu, já havia pisaduras no lombo. Foi assim que o burro teve que ir pro estaleiro pra conserto.
E, por aqui, na região, o João da Cocheira era a “Excelência”, a última palavra que havia em tratamento de pisaduras. O médico perguntou por ele e, logo-logo, o velho curandeiro foi trazido à sua presença: - O senhor entende do riscado, veja como o meu burro está? - indagou o Dr. Ramalho. “Claro seu dotô, nóis entende do assunto” - respondeu o especialista. O médico pediu para ele curar a pisadura, não importasse o que iria custar o tratamento.
O perigo era aquela ferida virar bicheira ou câncer. Se isso acontecesse era quase certa a morte do burro. Portanto, era de muita responsabilidade o serviço do João da Cocheira. O médico chegou mesmo a pedi-lo que se dedicasse algumas horas por dia na beira do curral onde o animal convalescia. Enquanto isso, Dr. Ramalho ia de fazenda em fazenda fazendo seus atendimentos à sua clientela.
João da Cocheira cuidava bem do Diamante. Primeiro ele arrancou um punhado de pé-de-perdiz, torrou muito a raiz e depois moeu até virar um pó fininho que guardou num vidro de tampa. Este pó ele polvilhava em cima da pisadura, duas a três vezes ao dia. Cobria a ferida inteira. O machucado dava uma agüinha e ia formando uma outra camada de ferida. E lá ia o João polvilhando seu remédio ...
De vez em quando, o especialista, para combater a inflamação que surgia, costumava usar o mel da casca do barbatimão e logo-logo a ferida começava a secar. Quem não gostava do barbatimão era a mulher que dividia quarto com o João da Cocheira, em barraco na beira do rio. Ela aprontava dificuldades na hora de botar o barbatimão na panelinha de alumínio. Dizia pro João que aquilo agarrava no fundo.
Entrou dia, saiu dia, e lá estava o especialista cuidando do animal do doutor. Até que uma tarde chegou o Dr. Ramalho, vindo de uma viagem de muitos dias consultando a população. A primeira coisa que ele fez foi visitar o Diamante no curral. O pêlo estava liso, o rabo cortado, a crina aparada e o danado havia até engordado. A pisadura nada! O João da Cocheira tinha posto fim nela.
Depois de elogiar o trabalho do especialista em pisadura que havia contratado, o Dr. Ramalho ficou surpreendido quando perguntou o preço do serviço para o João da Cocheira, que respondeu:
- Não é nada não, doutor. Imagina!
- Imagina o quê?
Se sentindo meio ofendido o João respondeu, na lata:
- Então o senhor acha que eu vou cobrar de um colega de profissão?
