Os extraterrestres
por Aloísio Melo MoraisDisso não sabemos nada. Os extraterrestres começaram por uma análise minuciosa do escândalo último da lavagem de documentos e emplacamentos falsos de veículos promovida pela Ciretran (Circunscrição Regional de Trânsito) que responde pelo DETRAN-MG, na cidade. Os andróides ficaram estarrecidos com o número de veículos divulgado pelo jornal Estado de Minas, em sua edição de 13 de março de 2011, página 18, em que Rio Preto aparece possuindo, em relação aos seus 5,3 mil habitantes 8,7 mil veículos.
Ou seja, a delegação de extraterrestres quis uma explicação plausível do Jabuti, o principal responsável pela governança do Oiti da Rua Larga.
- Como pode Valença, que tem mais de 60 mil habitantes, cada morador possuir apenas 0,2 carros em suas garagens, enquanto em Rio Preto cada morador é dono de 1,62 carros? – perguntou um inumano durante a entrevista realizada no Salão Oval do Oiti.
O bicho lerdo que está por concluir sua estada na árvore, como sempre, nem a cabeça balançava, ao ser entrevistado. Os extraterrestres queriam saber dele porque nunca tomou uma providência séria para estancar o derramamento das placas falsas. Nada, o quadrúpede não respondia a nenhuma indagação. De vez em quando, olhava para um ou outro puxa-saco que o cercava durante o infortúnio da visita dos planetários e aí (como sempre), eram só sorrisos e aplausos!
Os extraterrestres queriam saber como o dinheirão arrecadado com o IPVA (mais de R$ 700 mil/ano) era gasto na cidade, pois tinham lido no noticiário do jornal algo sobre o assunto. Milagre aconteceu, o Jabuti, pela primeira vez, ousou falar:
- Nós gastamos o dinheiro com as festas anuais do Rei Momo, com despesas caras dos nossos blocos carnavalescos. Tem um, por exemplo, do Monte Imalaia, que tem mais de 1 mil componentes e sua alegoria é riquíssima, requer muita, mas muita grana mesmo para compra das fantasias.
E os extraterrenos tinham outras curiosidades: - O senhor não acha que o fato de ter ficado calado contribuiu para o derrame das placas falsas, ou seja, do aumento e da impunidade do crime organizado? - indagaram.
– Isso tudo é uma grande mentira. Nossa cidade tem muita gente que mora fora e que vem sempre aqui emplacar seus carros – respondeu o Jabuti, em meio a um foguetório, lá fora, dos puxa-sacos acompanhando pelo som do alto-falante a entrevista interplanetária (transmitida também no Cosmos).
Um outro enigma era preocupante para os extraterrestres: - Como pode uma cidade com tantos veículos ter apenas um posto de abastecimento de combustível? Nessa hora foi uma risada geral no Salão Oval (é que os puxa-sacos, destoando dos andróides, riam alto, em completo gozo, enquanto o Jabuti, entre dentes, apenas suspirava). Lá fora, mais foguetes e mais gritos histéricos: - É o maior! É o maior!
Uma última pergunta dos andróides foi feita: - Como o senhor classificaria esse escândalo que, segundo a tevê, envolveu mais de R$ 2 bilhões entre roubo de veículos e emplacamentos falsos, etc.? – “É FAN-TÁS-TI-CO”, respondeu o Jabuti para o êxtase geral da patuleia de puxa-sacos. Quanto mais explicações recebiam os extraterrestres, menos eles entendiam. Mas durou pouco a entrevista. Eles se deram por vencidos e tomaram de seu disco e voaram pelos ares.
