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Os seresteiros

por Aloisio Melo Morais
O José Tavares, alegre, foi dessas pessoas inesquecíveis que passaram por Rio Preto. Em seu livro Crônicas Riopretanas, em que ele divide a autoria com seu irmão, Miguel Tavares, lá estão relatadas inúmeras estórias da cidade, sempre gostosas de serem lidas. De vez em quando, retorno à leitura do livro para saborear os causos ali escritos.
Já houve uma época em Rio Preto (que não é a minha) em que as serenatas noturnas eram de fazer inveja a qualquer um, amante da boa música, relata Tavares. Havia o Zé Maria, que era um grande seresteiro e que sempre saía pelas ruas a cantar. Ele tinha uma bela e sonora voz, a cantar belas melodias para o violão, que ele também tocava muito bem.
Os tempos do Zé Maria se passaram, mas ele fez escola deixando que outros que o sucederam repetissem seu feito de seresteiro. As moças ficavam em êxtase quando o ouviam, escondidas atrás das venezianas das janelas. Raramente apareciam, principalmente porque, se o fizessem, arriscavam-se a pitos e castigos dos pais.
Tavares e o Zoca tentaram formar, nesse tempo, uma dupla de seresteiros. Por mais esforço que fizessem, suas vozes e o som do violão que tocavam não chegaram a encantar as jovens riopretanas. Se, por um lado não tinham eles o carisma de um seresteiro como o Zé Maria, por outro, eram os galãs da época causando frisson nas jovens apaixonadas.
Outro seresteiro, este bom músico e cantador, era o Braga. Tavares e Zoca o levavam sempre com eles para as cantorias noturnas pelas ruas de Rio Preto. Não demorou muito para que os dois descobrissem que as moças que ouviam o Braga se encantavam com ele. O ápice da desilusão do Zoca aconteceu quando a sua pequena namorada deixou-o, trocando-o pela voz galanteadora do Braga.
Desiludidos, Tavares e Zoca renunciaram definitivamente à intenção de serem seresteiros. Alguns anos mais tarde, Tavares, que ia sempre noivar em Santa Rita de Jacutinga, hospedou-se junto com seu amigo Gabi na casa do Latuf. Na mesma residência, grande e cheia de quartos, hospedaram-se também duas moças muito bonitas dali das redondezas, de alguma fazenda santarritense.
Uma dupla de seresteiros da cidade viram as moças durante o dia e, à noite, resolveram promover uma seresta para elas. Eram eles o Joãozinho Marinho e o Cirah, bons cantadores e que sabiam encantar as jovens com suas melodias de Chico Alves, Vicente Celestino e por aí afora. Na madrugada fria de Santa Rita de Jacutinga (era mês de junho), os dois seresteiros se postaram debaixo das janelas do quarto das moças que eles acreditavam estar ali hospedadas.
Mal sabiam eles que as jovens já haviam regressado, à tarde, para a fazenda onde moravam, no interior do município. Acordados pelo som da música da seresta, Tavares e Zoca, que dormiam no quarto onde as moças estavam antes, se levantaram e, pé-ante-pé, se deslocaram em silêncio para trás das venezianas.
Antes, eles tiveram o cuidado de acender a luz, no que os seresteiros lá fora ficaram emocionados: - Cirah, elas acordaram, veja as sombras nas venezianas – disse o Joãozinho Marinho, trêmulo de frio e emoção. E, assim, a cena ficou por muito tempo, com os dois seresteiros lá fora, no frio tocando e cantando, enquanto, lá dentro do quarto, cansados de tanto ouvir as músicas melosas e românticas dedicadas a “elas”, Zoca e Tavares resolveram pôr fim à seresta. Eles abriram as janelas.