Pressão baixa
por Aloisio Melo Morais- Bom dia, doutor.
- Bom dia. Vamos sentar.
- Brigado.
- Como é que vão as coisas, o que o senhor tá sentindo?
- Problema de pressão.
- Alta?
- Não, baixa.
- Tem certeza?
- Sim sinhor.
- O senhor anda desanimado?
- Não sinhor.
- Com preguiça?
- Não sinhor.
- Muita soneira, cabeça zunindo?
- É, um pouco.
- Pelo que o senhor tá me falando, sua pressão não parece ser baixa, mas vamos tirar as dúvidas.
Antes que o médico pegasse o aparelho, Bastião, aflito foi logo se adiantando: - Tem precisão não, doutor. Eu tenho certeza que a pressão minha é baixa.
- O jeito de ter certeza é medir - disse o médico, impaciente.
- Desculpa, doutor, mas não dá prá medir.
- Afinal, quem é o médico aqui, eu ou você? – perguntou o médico, com visível irritação e indagando novamente: - Primeiro, o senhor garante que tem pressão baixa, mas não apresenta nenhum sintoma. Depois, diz que não precisa medir. Agora, que não tem jeito. O que há, então?
- Calma, doutor. Acho que o sinhor não entendeu direito, o que eu não tô conseguindo explicar. Sei que é difícil pra mim explicar que a minha pressão é mesmo baixa. Eu tenho certeza ...
- Que certeza que nada, o senhor não é médico e não pode ter certeza de que a pressão é baixa sem antes medir...
- Doutor, me desculpe falar assim. É que a minha pressão é uma questão da minha barriga. É uma novidade que apareceu de um mês prá cá.
- E o que a barriga tem a ver com a pressão?
- Tem não, e o ar que fica lá dentro? - perguntou Bastião.
- Ar?
- Ar, doutor. Me perdoe, já que o sinhor insiste vou falar direto, na bucha. Eu sempre, a vida toda, dava cada “Pum” que era aquele estrondo, coisa bruta mesmo. Minha mulher até levava cada susto! De repente tudo mudou, venho sentindo que a força tá diminuindo ... Agora só sai aquele traquezinho de nada... Ultimamente, cismei e então resolvi procurar o sinhor. Um cumpadre meu morreu de pressão baixa. Ando com medo danado da minha acabar o restinho que ainda tem. Entendeu agora, doutor, o meu problema?
