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Serventia de pinga

por Aloisio Melo Morais
De assunto em assunto, o Bastião conversava em idioma fluente com seu amigo, na estrada que liga São Cristóvão a Rio Preto. Pouco abaixo, o rio corria manso, enquanto os dois troçavam:
- Cumé, tem pescado muito?
- É, sabe como é, né...!
- Tem pego piau grande?
- Ih, num te conto nada, outro dia me aconteceu uma!
- Quê que foi?
- Num sei se tenho coragem de contar...
- Conta home!
- Bão, então lá vai, hein? Eu tava à toa, lá na fazenda, quando resolvi ir na lagoa grande. Aproveitei a chance, o sol tava à pino, o tempo quente e eu pensei que ia ser fácil pegar uma traíra na flor d’água. Peguei o cacumbu, arranquei umas minhocas e pus no embornal. E, junto com a vara lá fui eu pro meu destino.
- E aí, pegou uma?
- Eu parei na beira da lagoa. Botei uma minhoca, da grande, no anzol, joguei n’àgua e fiquei esperando a filha da mãe fisgar. E num deu outra. Quando vi fez uma força doida na vara. Mas parou de repente. Num entendi, puxei a linha e vi que tava arrebentada. Pensei comigo: essa era das grandes. E, nessa hora, foi quando me assustei com a barulheira que aconteceu n?água, bem na minha frente.
- O que foi, home?
- Uma mexida doida, parecendo um tronco de árvore da grossura dum pé de bananeira ... Era assim o tamanho do bicho. Aquilo veio vindo, veio vindo e eu num sabia nem o que fazer. Minhas pernas tremiam e eu não conseguia sair do lugar. Era uma sucuri como nunca eu tinha visto na minha vida. Ela abriu uma bocona e começou a me engolir. Por questão de minutos eu tava dentro da barriga dela. Imagina a cena...
- E aí, você morreu?
- Claro que não, ô Zeca! Num vê que eu tô aqui te contando o que me aconteceu? Se tivesse morrido num tava aqui, ô besta! Mas eu num tive medo, mantive a calma naquela escuridão, no estômago da cobra. Eu só pensava num jeito de sair dali. Mas como? - eu pensava. Primeiro eu tinha que me desvirar, prá poder ficar com a cabeça no mesmo sentido da cabeça dela.
- Nossa, e como você fez?
- O que me ajudou foi a gosma que ela tem no bucho e que desliza igual sabão. Num tive muita dificuldade prá me arrumar. Fui mexendo, mexendo, até que fiquei desvirado. Olhei prá cima e vi, lá longe, um principiozinho de claridade. Imaginei comigo: deve ser quando ela abre a boca e que o sol entra ... Então pensei: tô no rumo certo, agora é só uma questão de tempo pra mim sair daqui.
- E o que ocê fez, Bastião?
- Agora é que vem o mió. Burro ocê sabe que eu não sou, né? Tirei do bolso a garrafinha de cachaça e joguei no fígado da cobra (e cobra tem fígado?). Num deu outra, ela começou a fazer vômito. Era o sinal de que começava a passar mal. Aí ela começou a ter contrações. Nisso, eu passava a maior dificuldade nas remexidas dela, que me misturava ao vômito, gosma e à carne podre.
- Devia ser de outros bichos que ela engoliu, né?
- É, isso mesmo. Bão, prá encurtar a história: ela foi se enjoando, enjoando até que eu fui vomitado prá fora da boca dela junto com aquela porcariada toda. Quando eu me dei por mim, eu tava do lado de fora da lagoa. Eu só sei que eu não vi mais a danada da cobra que, dizem, foi vista de ressaca andando pelo rio Preto. E é por isso que eu num tenho pescado mais.
- Troço doido isso que aconteceu com ocê, Bastião?
- Minha sorte foi a pinguinha que eu trago comigo no bolso. E ainda falam por aí que quem bebe cachaça morre cedo...
Em tempo: leitor, você não é obrigado a acreditar no relato acima mas, creia-me, trata-se de verdade mesmo. O Bastião, pessoa bem quista, é um dos que mais pegava piaus no rio Preto e, agora, não tem pescado mais. “Eu nasci outra vez” – afirma a todos que ouvem a sua história.