Solidão
por Aloisio Melo MoraisEnfim, a solidão está aí, presente. E mesmo que tentemos ignorá-la faz parte do nosso cotidiano. Como disse, nos relatos a seguir não existirão nomes, mas, creiam-me, não são os depoimentos sem autorias. Eles são partes de histórias reais que existem em Valença como em outros lugares como Rio Preto ou Conservatória, por exemplo, onde foram colhidas em conversas.
A televisão que nos arremete ao mundo da fantasia com suas novelas e filmes é também a que tem servido para acabar com o diálogo entre as pessoas. É diante desse aparelho e dos computadores modernos, que as crianças esquecem suas infâncias e são conduzidas à solidão quando adultos. “Sinto sozinho. Sou como o rio que passa debaixo da ponte” – de um jovem que fica todo dia horas diante do computador.
Para muitos jovens a solidão acompanha a ideia de dor e medo. Mesmo quando ela é passageira e não se repete, deixa lembranças de mágoa e tristeza. “É difícil definir a solidão, mas quem sente jamais a esquece”, afirma o mesmo jovem, que continua a definir a sua angústia: “Fico sempre sozinho. Aos poucos amigos que tenho nunca conto os meus problemas. Sinto um vazio e só me realizo na internet”- diz.
Nunca deixei de dar importância para a solidão. Mas, a primeira vez que fui levado a ela por comoção foi noutro dia, na rua escura. Eram umas sete horas da noite quando, de fusca, passando pela rua vi debaixo do poste aceso um homem com aparência de mendigo. Ele estava assentado à beira do córrego olhando para as águas. Parei e fui ao seu encontro. Mesmo na penumbra vi seu olhar de tristeza quando me dirigiu.
“- Tô com vontade de morrer” – disse. Ele estava com fome de comida. Mas, a sua fome principal era a de se sentir aceito, um sentimento que ele não sabia bem expressar. Talvez a aceitação seja algo ao contrário do abandono a que o confinamos. Pobre, negro e sem trabalho, ele se afunda diariamente na bebida da cachaça. Sem que continue a saber, talvez seja esse comportamento abúlico a resposta que dá à intolerância de nos aproximar dele, pelo cheiro horrível que exala da falta de banho.
Garante-me uma amiga que não existe solidão maior do que a que ela está vivendo agora, depois da morte de seus pais. “Fui escolhida pela família para tomar conta deles enquanto envelheciam. Agora, depois que morreram vejo que estou velha e só. Durante todos os últimos vinte anos eu não vivi, viveram por mim” - diz ela, hoje aos sessenta e poucos anos e sem rumo e esperança de ter um companheiro na vida.
“Quem não consegue casar consigo mesma jamais será capaz de casar com outra pessoa” - diz uma psicóloga, Fiorangela Desiderio, especialista em terapia familiar. Ela dá a receita para acabar com a solidão: “aceitar o desafio de se olhar e se reconhecer sem medo num espelho, enfrentando a própria realidade”:
“- Se percebemos que a solidão é ameaçadora, a primeira coisa a fazer é promover o encontro consigo mesmo. “Só depois disso será possível encontrar-se com outras pessoas de forma efetiva, inclusive no casamento” - finaliza a psicóloga, completando: “muitas pessoas sentem prazer imenso em ficar sozinhas. Isso é uma solidão agradável de alguém que se encontrou”.
