A minha história com o pato
por Hélio SuzanoTudo começou lá atrás, em novembro de 2007. Eu nunca havia me interessado por patos. Na minha infância, sempre gostei muito do campo, da vida simples e ritmada da roça. Mas, se tem um bicho que nunca me motivou, esse era o pato. Uma ave feia, desajeitada, com aquele olhar bobo e o jeitão desengonçado. Muito por causa daquelas patas estranhas. Não é a pata “mulher do pato”, falo das patas do pato, as patas com que ele anda. Não as patas que andam como companhia, mas as patas, digamos, os “pés” do pato. Seus dedos colados. O bico do pato também é meio estranho. O pato tem o bico achatado... Mas e daí? O fato é que conheci um pato meses antes das eleições municipais de 2008 e que não o levei a sério.
Conheci o Pato num lago na casa do então prefeito, lá no bairro Canteiro. Para mim, pouco importava se o pato tinha patas esquisitas; ou se tinha bico achatado... Eu não tinha nada haver com os patos... Era finalzinho da primavera. Junto ao lago, os patos tomavam banho com seus patinhos que tinham acabado de nascer. Era uma alegria só. Umas patas tinham dois, três e mais patinhos, mas um em especial me chamou a atenção. Enquanto os patos se divertiam no lago, este Pato ficava postado às margens observando, com um olhar altivo, a alegria alheia. Quando se aventurou a um mergulho, quase se afogou. - “Aquele pato era uma piada”, pensei eu.
Ele era um pato comum, desajeitado e folgado. Com aquela cara de espantado. Mas, tinha um olhar diferente, intrigante. Parecia ler os pensamentos da gente. Tinha as penas brancas, pinceladas com preto e amarelo. Em dado momento, o Pato virou-se para mim e passou a me fitar. Não tirava os olhos de mim. Vim embora sem maiores problemas. Na altura de Chacrinha foi que ouvi um barulho, mas pelo retrovisor da caminhonete, não observei nada de mais.
Naquele mesmo dia, na casa da minha mãe, me deparei com o Pato na caçamba da caminhonete me encarando. Patos não falam e não pensam como nós. Pelo menos era assim que deveria ser. Esse Pato não falava, mas seus olhos diziam muito... Diziam que eu deveria, ou melhor, não deveria ser candidato naquelas eleições. E foi assim por meses a fio, até que me irritei com aquela ave agourenta e a despachei para bem longe. Mas ele não desistia e, volta e meia, o encontrava numa esquina sempre a me alertar. O Pato parecia ter cursado alguma faculdade de filosofia ou de psicologia. Era articulado a ponto de parecer arrogante nas suas elucubrações. Suas reações, seus conselhos, suas sacadas bem humoradas eram certeiras e impressionavam. Coisa de maluco. A história toda era coisa de maluco. Por vezes, era debochado, arredio, cético com relação às pessoas e as relações humanas. Dizia: “o ser humano só é solidário no câncer...”. Hoje, sei que esta frase não é dele. Suas análises políticas, suas percepções sobre os políticos, sobre os candidatos a prefeito... Ah, se eu tivesse ouvido! Parecia que previa o futuro. Teria evitado muita coisa...
O fato meus amigos, é que a candidatura nasceu, meu partido fechou apoio a Vicente, a campanha veio e, com ela, um Pato cada vez mais contrariado. Os comícios, os discursos, os apoios, os tapinhas nas costas davam ideia de tudo perfeito. Menos para o Pato. Sua última aparição foi semanas antes do desfecho eleitoral. Postado ao lado de uma gaiola, com um alçapão preso e a indefectível expressão: “tá por sua conta e risco...”.
Poucos meses depois voltei a encontrá-lo. Havia se atirado, desesperado, às águas de um lago e, batendo com tanta força com as patas, acabou por conseguir nadar e salvar um filhote de bem-te-vi que se afogava. Depois, também com força e violência, bateu furiosamente com as asas, levantou vôo. Subiu, subiu e, do alto, viu a copa das árvores onde deixou o filhote aconchegado no ninho. Pouco depois, o Pato despencou num pouso horroroso bem ao meu lado. O herói daquele dia voltava a ser o Pato desajeitado, meu amigo.
Deste dia em diante nunca mais deixei de considerar suas opiniões. Mesmo quando não concordo, aceito discutí-las, porque sei de seu “talento ácido, prático e visionário”.
