A Páscoa da dona Olinda
por Hélio SuzanoNão sei se vocês apreciam estes almoços em família. Para mim eram sempre muito especiais, talvez por serem tão raros. Naquela Páscoa, na casa da dona Olinda, na cozinha da Dorinha, com o fogão a lenha enfumaçando, fumegando calor e aromas que chego a sentir agora. Creio que foi uma única vez, já que minha avó não era das mais receptivas e afáveis. Era emburrada, sempre sentada numa grande cadeira na sala, implicando com a Dorinha e seus desperdícios na cozinha. Dorinha tinha uns sessenta anos, negra gorda de seios enormes e uma grande devoção àquela casa. Neste dia estávamos todos lá: meu pai debulhando o jornal na sala, enquanto minha mãe ajudava na arrumação da mesa junto às tias Nélia e Jandira. Na outra sala, meu tio Tavinho conversava comigo como se eu fosse adulto, contando-me bravatas, aconselhando-me a casar cedo com uma moça bem rica. Tio Tavinho era assim mesmo, uma figura das mais excêntricas. Poderia fazer uma crônica somente sobre ele. Era o mais novo dos oito filhos. As coisas para ele eram sempre fáceis, tanto para ganhar como perder, pois sempre tinha o colo e a cumplicidade de minha avó acobertando seus equívocos. Seus sonhos de grandeza chegavam às raias da desmedida total. Mas era do bem, engraçado, um bon vivant que deixou saudades.
Desde cedo fui carola, bom aluno, - eu acho -, filho da catequista. Levava o catolicismo a sério, principalmente no período da Quaresma, em preparação para a Páscoa. Minha avó não levava tão a sério. Era Católica, devota de São Sebastião, mas não era de ir à missa. Na verdade, minha avó tinha ares de nobreza européia, sabe? Era altiva, um pouco metida, diria. Mas de bom coração. Embruteceu com meu avô, e suas aventuras com as “negrinhas”.
Vocês podem até achar que tudo isto é uma bobagem e que não merece uma crônica, já que muitas pessoas almoçam juntas e comemoram juntas estas datas, independentemente de qualquer inspiração familiar ou reminiscências. Mas comigo é diferente. Minha avó, como já disse, não era nenhum exemplo de vovó boazinha e amorosa. Era dura e às vezes cruel. Naquele domingo, transformou-se em carinhos e meiguices com todos, especialmente comigo. Senti sua presença neste domingo, coisa que nunca havia acontecido antes. A verdade é que, nem me lembrava mais dela. Meu pai faleceu tem oito anos; meus tios e tias faleceram muito antes. Só resta minha tia Jandira que mora no Rio e vem ao Porto de quinze em quinze dias. Raríssimas são à vezes em que nos encontramos. Por isso, lembrar-me da avó Olinda, neste domingo de Páscoa, foi tão surpreendente e ao mesmo tempo, significativo para mim.
Depois que meu avô faleceu, minha avó se fechou para o mundo. Tratava seus filhos como meninos, cheia de cuidados, e as noras com indiferença e frieza. Para suas filhas, dispensava um tratamento todo especial, cheio de crueldade, bem diferente do tratamento dispensado aos genros. A vida dela se resumia a um quarto numa casa enorme, a companhia da Dorinha, uma cama de viúva, - sabe, aquelas meio termo -, uma penteadeira, uma imagem de são Sebastião, uma cadeira de balanço e um rádio. Só saia dali para assistir a novela das seis, uma rodada semanal no quintal para ver suas plantas, uma ida na igreja e as implicâncias cotidianas com a Dorinha na cozinha, de frente para o fumegante fogão, sob os olhares simplórios e silenciosos de seu Dário, esposo da Dorinha, que cortava lenha no alpendre em frente à cozinha.
Junto a estas lembranças, vieram outros acessórios, como as conversas de adultos na venda do seu João Bosco, atrás da estação, ao lado da casa de minha avó ou a visita de seu Claudio, farmacêutico, à minha avó, sempre no domingo, fosse à data que fosse e os burrinhos atravessando a ponte, sozinhos, com pesadas latas de leite, a caminho do laticínio do seu Roberto da Fonseca. Coisas que ficam em nossa memória.
Além de rezar o terço todo santo dia, minha avó nunca deixou de ler. Era culta e talvez, ai, residisse seu amargor com a vida. Morreu com quase noventa anos, reclamando da Dorinha, das novelas e da algazarra da molecada, sempre preocupada com o Tavinho. Neste domingo, minha avó Olinda viveu novamente em minhas lembranças, em meu coração. Acho que Páscoa é isto.
Boa semana.
