Código de sobrevivência para Valença
por Hélio SuzanoEssa experiência foi pra valer mesmo. Depois de ler o e-mail, fui à pesquisa e me surpreendi com os resultados. Na verdade, eu tirei muitas conclusões por minha conta. Perdoe se me equivoquei ou viajei na maionese a partir de uma experiência feita lá no caixa prego - que expressãozinha antiga essa, heim? Mas, permitam-me exagerar, acho que dá para tirar algumas impressões sobre nossa situação local. Dois carros idênticos, deixados em dois bairros com populações díspares, e um sem número de professores estudando as condutas das pessoas em cada lugar.
O resultado foi que o carro abandonado no bairro pobre e conflituoso (Bronx) começou a ser depenado rapidamente. Roubaram espelhos, pneus, rádio, o motor, etc. Levaram tudo que rendesse algum dinheiro e o resto, simplesmente destruíram. Enquanto isso, o carro deixado no bairro rico e tranquilo (Palo Alto) ficou intacto.
E daí? Geralmente é fácil atribuir à pobreza a multiplicação de delitos. Coincide - diz o e-mail - “com as posições ideológicas mais conservadoras”. Entretanto, meus caros leitores, Zimbardo não parou por aí, na conclusão simplista e imediata. Foi além. Quando o carro deixado no Bronx já estava desfeito e o de Palo Alto estava há uma semana intocado, ele quebrou um vidro do carro de Palo Alto.
Uma avalanche de acontecimentos foi desencadeada com este evento promovido por Zimbardo. Foi o mesmo processo que vitimou o carro deixado no Bronx, reduzindo-o ao mesmo estado do carro deixado no bairro pobre. A pergunta é: por que diabos, um vidro quebrado desencadeou esta sequência de violência?
A conclusão que se chegou é que a pobreza não é o fator principal determinante para o vandalismo, a depredação, violência e delitos que se sucederam. É maior, mais profundo. Está nas relações humanas, nos valores e na autoestima estabelecidas dentro de uma engrenagem psicológica formada pelas relações sociais/ humanas.
O vidro quebrado, uma placa pichada, um equipamento urbano abandonado, uma praça suja, uma calçada esburacada e suja, uma rua emporcalhada, muros sujos, abandono, transmitem a ideia de desinteresse, de despreocupação que rompe com os códigos, num vale tudo sem limites. Daí para diante é como uma corrente que se alimenta dos acontecimentos. Cada novo ataque ao carro reafirma e multiplica essa ideia, até que a escalada de atos cada vez piores, se torna incontrolável, desembocando numa violência irracional.
Posteriormente, outros professores (James Q. Wilson e George Kelling), desenvolveram a “Teoria das Janelas Partidas”, a mesma que de um ponto de vista criminalístico, conclui que “o delito é maior nas zonas onde o descuido, a sujeira, a desordem e o maltrato são maiores”.
Agora, vem minha interpretação, trazendo para nossa realidade local. Acho que é isso mesmo. Pequenas transgressões cotidianas que assistimos reiteradamente aqui em Valença (estacionar em lugar proibido, lixo fora do horário, carga e descarga em qualquer hora e lugar, coleta de lixo em horário impróprio, ruas escuras, mentiras institucionais, impunidade, etc.) sob a vênia dos governantes e da população, desencadeiam faltas maiores e logo delitos cada vez mais graves. Estas ilicitudes vão se tornando normais e seguem influenciando no desenvolvimento das crianças.
No final do e-mail, vem a informação de que a teoria “Janelas partidas” foi aplicada na década de 80 no metrô de Nova York e mais tarde, diante do sucesso, em 1994, o prefeito Rudolfh Giuliani impulsionou a política “Tolerância Zero”, baseada na pesquisa. O resultado, o mundo inteiro conhece e aplaude.
Indo mais longe, talvez essa teoria pudesse ser aplicada em Valença. Mas, para o seu sucesso, deveriam também ser aplicadas às autoridades e seus abusos e omissões. Seu significado deveria ser em relação ao delito, aos abusos, às omissões, às imposturas, aos atentados à ética e à educação, às intolerâncias, às transgressões, à corrupção. Um código de conduta, de prevenção e promoção, de sobrevivência para a raça humana em Valença.
