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E o sonho virou pesadelo

por Hélio Suzano
Na última coluna, narrei o sonho estapafúrdio, no qual, sem saber porquê, liderava uma nau de valencianos pelados a entoar o coro de uma cidade limpa, verdadeira e igualitária. Sem o desfecho e uma explicação qualquer, voltei a dormir em busca de respostas.
Lembro-me, em frente à Prefeitura, com centenas de pelados a gritarem e a pedirem por voz e vez na cidade dos tambores, de Clementina, Rosinha e Dulcina. Apalermado, embriagado com a situação e com o sufoco de nada entender, me infiltrei porta adentro da prefeitura buscando refúgio, um amparo traduzido em vestes “dignas”.
Se não me engano, meus amigos, a quem confio e confidencio todo este “furdunço”, já eram umas 7h30 e ninguém mais estava na prefeitura. Os abnegados vigias, a esta altura, já tinham aderido à ode dos pelados. Entrei pelos corredores do “palácio” Municipal, onde as decisões mais importantes e impactantes para os cidadãos valencianos são tomadas.
De repente, algo diferente começou a acontecer. Uma áurea de realeza me invadiu. Sensação de força e poder descomunal. Uma auto-suficiência e coragem, uma disposição avassaladora, daquelas que jogam você no abismo das decisões e confabulações. Um poder incomensurável, capaz de calar a voz dos mais falantes e dos mais brilhantes. Eu, que até aquele momento, andava encolhido e apreensivo, sem entender muito tudo que estava acontecendo, passei a andar mais ereto, firme e decidido, mesmo continuando a entender nada vezes nada.
Pelos gabinetes, a sensação foi ainda maior. Realmente, eu podia! Podia tudo e mais. Resolver os problemas da cidade, as injustiças, as lambanças históricas, os erros e omissões. Fazer uma nova cidade, erguida por sobre os escombros da antiga Valença Feudal. Comecei a detalhar planos e projetos de obras dentro de uma perspectiva estratégica de gestão administrativa e política. Pilhas de processos sendo despachados rapidamente, amparados por critérios técnicos. As contas públicas abertas e transparentes para todos conferirem. Velhos vícios sendo rompidos numa canetada. Uma cidade onde se respira cultura e lazer; trabalho e progresso; qualidade de vida e turismo.
Mais adiante, com o decorrer do tempo, comecei a sentir uma sensação de impotência e frustração. Já enxergava a camarilha de bajuladores se aproximando. Os entraves burocráticos se avolumando. Logo me via açoitado pelo chicote dos críticos e demagogos, acuado pela chantagem explícita ou implícita dos fisiológicos e oportunistas, atropelado pelas alianças espúrias e maldosas. Tudo contaminando a população e a popularidade. Em pouco tempo, o poder se esvaia de mim.
Foram três dias preso dentro da prefeitura sem que ninguém notasse minha presença. A impressão que tinha é que não estava pelado, mas sim invisível. Sobrevivi dos cafezinhos e das bolachas.
Finalmente acordei cedo pela manhã. Eram 7h25, menos esbaforido que da primeira vez. Estava bem composto com meu pijama. Tudo fora realmente um sonho/pesadelo. Foi a pizza ou o vinho da véspera? Quem poderá saber? Pela janela vi o sol brilhando. Ficou a certeza de que só uma Valença desnuda será capaz de nos livrar desta realidade atormentadora.