Nu com a mão no bolso
por Hélio SuzanoPassei pelo banco real para um saque a pedido da Cris. Tudo absolutamente normal. Cheguei ao escritório por volta das 8h15, falei com a Cíbila e com o Cris normalmente, como sempre faço. O seu Lulu estava terminando de arrumar minha sala quando entrei. Fui direto para a Internet verificar meus e-mails. Fiz umas duas ou três ligações. Foi quando recebi a ligação do meu camarada João para o café matinal.
Devia ser umas 9 horas quando saí para o café na padaria do Elói. Um sentimento de vulnerabilidade me invadiu a alma naquele percurso. Em frente à escola Normal, acenei para o Dimas, que mau me respondeu ao aceno. A Irmã Ana se benzeu ao passar por mim. Ainda a chamei por duas vezes sem sucesso. Algo diferente acontecia.
Na esquina da Visconde de Ipiabas, atravessei debaixo de um buzinasso intenso dos carros que passavam. Eu nada entendia. Parei bem diante da padaria, onde o João me esperava para o café. Ele me olhou atônito. Lembro-me de perguntar - Mas, o que há João? Por que essa cara de espanto? As meninas do café me focavam de cima a baixo. Eu perguntei mais uma vez: O que há minha gente? Foi quando o João balbuciou uma frase maluca - “Você tá pelado?”. O que? Eu voltei meus olhos para baixo. Meu Deus! Exclamei aos berros. Estou nu? Como pode?
Meu Deus será que surtei? Cochichos e estribilhos percorriam os ouvidos. Estupefatos. Seria a loucura que tomava conta de mim? Alguns achavam que tinha sido assaltado ou sequestrado. Uma coisa assim. O fato é que a nudez constrange, coage e cala até os mais falantes. Uma onda de opiniões invadiu a rua. O Rômulo, Rauzinho, Zé Mauro, Elcir, os taxistas, o Cosme, Heitor, comerciários, o Fabio, o Leitão, dona Neusa, o Edilberto, a Glayde, todos sem exceção, a perguntar-se o que teria levado o Helinho a desnudar-se em público?
A teoria dominante era do surto. Diziam os passantes - “É estresse demais”. O povo das Casas Bahia e do bar do Fred embarcavam nessa - “Ele surtou”. Casos semelhantes noticiados na TV eram citados. Alguns afirmavam terem me visto rasgando dinheiro na véspera. Outros acusavam o Pato por tudo aquilo. Mais tarde, a teoria dominante já era outra. O Abruzzini preparava seu editorial focando a minha nudez próxima ao aniversário de Valença. “Seria um protesto”, dizia ele. “Uma cidade cheia de imundices”. Nessa, até a turma do Samir embarcou. Uma forma radical de extravasar tudo. Nessa onda o Marcolino (Dr. Marcos Leal) aderiu e despiu de tudo. Eu já não estava sozinho.
Ricardo Reis, Soninha e Paulo Henrique Nobre, do Jornal Local, foram os próximos a tirarem suas roupas em nome da transparência e da verdade em Valença. Em poucos minutos, eram dezenas de pelados a pedir por uma Valença para os valencianos. Em meio a esse reboliço, chegaram os Bombeiros com sirene ligada. Não sabiam o que fazer até que, um dos Bombeiros, aos berros, gritou - “À hora é essa!” E tirou a roupa em protesto. Neste instante, a Rio Sul já filmava tudo. Um helicóptero do Datena sobrevoava a cidade. Uma onda de pessoas peladas transbordava pelas ruas.
Gordas, magras, velhos e novos se juntavam numa grande corrente de entusiasmo e fé. Até o padre Edilson aderiu à onda. Começaram a chegar os políticos e assessores. Mas, poucos, tiveram coragem de se despir. “Tinham muito a esconder (...)”, gritavam alguns. A verdade é que o mar de pelados se estendia até o Fórum da cidade, onde muitos togados aderiam à alvissareira onda de transparência e decência.
A multidão de pelados segurava o coro numa cidade onde todos têm direitos, mas ninguém assume suas obrigações. Onde, por trás do pano, do politicamente correto, vive-se uma realidade feudal: com rei, duques, arquiduques e senhores feudais. Os pelados estavam despidos dos esquemas, da intolerância, da ganância, da arrogância e da omissão. Marchavam pela decência e pelos verdadeiros valores valencianos (...).
Acordei sem ar, sem chão. Que sonho estranhíssimo! Esbaforido, com o coração acelerado e desorientado. O inusitado é que não costumo sonhar - ou não me lembro de sonhar. Mas, nessa noite, tudo parecia absolutamente real. Olhei o relógio, marcava 3h25. Voltei a dormir, esperando o desfecho do sonho.
