Um coração ulcerado
por Hélio SuzanoSaibam, pessoas como eu, começam a sofrer antes dos fatos, por antecedência. Sofrem no metabolismo frio das coisas. E sofrem ainda mais porque enxergam demais. Sempre digo aos amigos e parentes que não gosto de comemorar a data. Chego a banalizá-la. Tudo para não revelar minhas inquietações e medos. Pura burrice.
Antes que virem a página, não pretendo falar de mim. Falo de coisas que todos nós deixamos de fazer durante a vida. O tempo inteiro vivemos a escolher, optar por isso em detrimento daquilo. Nossa vida é feita de escolhas. E sempre somos necessariamente levados a deixar algo, alguém ou algum caminho para trás. Poucos são aqueles que puderam ou quiseram saber aonde daria se tomassem o outro caminho.
Ninguém nasce sabendo. Então o jeito é viver aprendendo com doses homeopáticas de bom humor e sabedoria. E, se possível, ter amigos ao entorno para auxiliar nas esquinas e bifurcações. Quando escolhemos aquela estrada, deixando para trás aquela outra, com certeza sabemos que abrimos mão de alguma coisa. Assim é a vida.
Nada conclusivas são nossas histórias. Tudo é muito rápido e efêmero, e aqui incluo os relacionamentos e as conquistas também. Ninguém está impedido de mudar de rumo, de caminho no meio do percurso. É como parar no meio da faixa de pedestres e resolver retornar, abrindo caminho por entre os que vêm.
O fato é que estas mudanças quase sempre são traumáticas. Geram infelicidades e felicidades. É como você descobrir um novo amor, quando parecia que nada mais haveria naquele setor. E você se vê como adolescente, febril, ansioso, angustiado e excitado por um turbilhão de emoções e desejos em meio às repressões e contrariedades de todos. Repare bem que, não é uma simples mudança; é voltar ao começo e pegar a outra saída.
Na vida profissional, então, isto pode significar um milagre. Você passa toda uma vida atrás de um sonho, em meio a uma profissão que não lhe empolga mais e, de repente, descobre uma outra que te desafia que te interpela e sacode. Isto traduz o que é estar vivo.
Não estar acomodado talvez seja a melhor tradução para esta vontade de viver. É ter coragem de voltar atrás, recomeçar, ou melhor, buscar o outro caminho que você deixou lá trás.
Outro dia, escrevi sobre o matrimônio através do casamento de duas personalidades amigas. Foram quase unânimes os aplausos. Sinal que ainda há esperanças e que as pessoas ainda querem acreditar que sempre é tempo de assumir compromissos e cerrar punhos diante de desafios e motivações.
Às vezes, parecemos àquelas birutas de aeroporto, ao sabor do vento. Será mesmo que todos que aplaudiram o meu texto o compreenderam verdadeiramente? Será mesmo que temos uma opinião formada ou vamos ao sabor da maioria, nos entregando ao balanço das ondas.
Um romance, uma nova história, uma nova motivação para continuar, perseverar. Sofremos, perdemos, ganhamos por nós mesmos, pelos nossos queridos, por nossos ideais sei lá, pelo que nos motiva. Penso que ter medo deixou de ser bom para nós. O medo nos protegia dos perigos quando, por exemplo, estávamos diante de um grande obstáculo. Mas, agora, o medo começa a nos impedir de ser felizes. Começa a nos prostrar. Um medo difuso à beira do abismo. Precisamos voltar ao sorriso fácil e descomplicado que funciona maravilhosamente bem quando todos agem com naturalidade.
O Pato feliz
Feliz com os empregos que começam a engrossar em nossas empresas, finalmente. Só este mês já passam de mil. Feliz também, por que vê alguns movimentos novos de otimismo no Brejal.
O Pato, sempre cético, ainda se espanta com alguns discursos pessimistas. Vieram de bicos novos. Tem novos candidatos a vira-bosta no Brejal. O bloco dos alienados engrossando.
