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Um motivo para se indignar

por Hélio Suzano
Quem é que se indigna com alguma coisa hoje em dia? A garotada? Os mais velhos? As mulheres? Os pobres? Antes de assumir responsabilidades, constituir família e cumprir com todas as formalidades indigna-se com as injustiças cotidianas mais facilmente, e esse “indignar-se” é uma beleza. Questionar, experimentar, contestar, exigir de dedo em riste, protestar, curtir, ir as ruas manifestar, brigar, voltar, se preparar para mais uma rodada, agarrar-se ao ideal como tábua de salvação para a sociedade. Que fase!
Isso tudo vem antes do casamento, dosa filhos, das obrigações e daquelas coisas todas. Depois tudo é mais complicado, mais tenso. As pessoas se acomodam, ficam exaltadas, preocupadas em conquistar seu quinhão, na luta pela sobrevivência cotidiana. Deita-se na cama, e o que vem a cabeça são os dilemas do trabalho, as contas a pagar, as responsabilidades assumidas, a faculdade do filho, os entreveros do lar, numa espécie de piloto automático. Sobra muito pouco tempo e espaço para se indignar com os políticos corruptos, com as injustiças sociais ou com o estrago que fizeram em nossa cidade. A indignação fica pro dia seguinte.
Até o dia em que aparece aquela questão perturbadora. Tudo muda. Volta-se a adolescência repentinamente. O frescor da paixão estreada, o entusiasmo contido, a vontade de se engajar mais uma vez nesta luta, tudo volta numa intensidade avassaladora. E quando se volta pra casa, tudo é mais dramático, mais inquietante mais urgente e mais frustrante. Fica difícil conciliar os dois mundos. Não que seja impossível, ao contrário, pode ser inquietante e impressionante.
A questão perturbadora, a nova motivação pra se envolver, se mover é o que impulsiona as mudanças e as rupturas. Uma cidade como Valença precisa de gente indignando-se. Precisa dessa indignação a serviço da melhoria de qualidade de vida, da limpeza política, da melhoria administrativa. Um sentimento que turbina os desejos de participação e exercício de cidadania. Assim, por exemplo, aconteceu com os caras pintadas na redemocratização do Brasil; assim também aconteceu com a eleição de Jânio Quadros, prometendo varrer a corrupção resultante da promiscua relação de empreiteiras e governo. Nem sempre o resultado é o pretendido. E só olhar o resultado da vassourinha do Jânio Quadros. Vinte anos de ditadura militar. Mas, ficou a lição, o aprendizado e o dever cumprido. Errar é melhor do que não fazer nada. A omissão é o maior pecado.
Aqui temos vivido uma total indiferença da sociedade com as questões importantes para a cidade. Agora mesmo estão decidindo na Câmara de Vereadores o número de Vereadores para o próximo ano. Ninguém sabe, e ninguém quer saber. O máximo que acontece é ir a rua dos Mineiros criticar, fofocar e passar procuração para algum politiqueiro mal intencionado e fajuto. O cidadão está blindado. Apatia geral que leva os poderosos a achar que tudo podem. Ninguém se manifesta seriamente por nada em Valença. Os fóruns adequados como as associações e os Conselhos vivem as moscas, sempre compostos pelas mesmas pessoas. Uma rotina perfeita para quem não quer mudança.
Já é hora de voltar a indignar-se. Como antes do casamento. Mostrar às autoridades e poderosos que Valença tem brio, vergonha na cara. Deixar a apatia de lado e buscar um ideal para defender. Cobrar dos políticos e administradores, retidão moral e ética, honestidade e compromisso com a cidade.
O Pato
A surucucu do brejo está à espreita de algum desavisado. Bobeou ela papa. O pato alvinegro, com sua estrela solitária no peito, orgulhoso, vai feito xerife, em busca dos maus feitores do brejal. Vai enquadrar a camarilha toda. Telhado de vidro, todos tem, mas melhor correr riscos que viver uma eternidade na lama do Brejal.
E as varejeiras continuam a infestação!!!!