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Bicho adivinhão

por José Viriato da Silva
“Em profunda reverência contemplo o retrato da minha avó com seu coquinho, seu buço e os brincos de brilhante que foram alvo da cobiça de várias herdeiras. Uma santa que passou a vida cuidando dos seus e dos outros, criatura quase perfeita, sim, sem defeitos, isto é... até eu me lembrar que todas as manhãs materializava o sonho da noite fazendo sua fezinha! Sinceramente a culpa não era dela, mas do Barão de Drummond, inventor dessa tentação, que fez de vovó uma contraventora, mesmo que ela ignorasse o fato. Seu maior sucesso no evento foi ter sonhado com uma prima dela de apelido Cabritinha, sabido por todos menos pela própria. Vozinha jogou na cabra, ganhou boa grana com que presenteou o primogênito, no casamento, dando-lhe, para seu sítio, um touro.(sem nenhuma insinuação, porque a noiva foi sempre esposa fidelíssima).Fato é que uma alcunha bem interpretada resultou em lucro. Tamanha  tristeza me causa esse lado fraco da minha antepassada, que eu lhe peço  falar no assunto,  para aliviar o opróbrio, consolando-me ver que outros embarcaram nessa arca de Noé.”Foi isso que disse um leitor das minhas crônicas e, como não custa nada, vou satisfazer seu pedido.
Os bichos e as predições aparecem ao longo da história da humanidade de diversas maneiras. Certos oráculos da Antiguidade praticavam a aruspicação, ou seja, adivinhar através da observação das vísceras de animais. Ainda na mesma linha, existe a curiosa apantomancia, a arte divinatória que busca predizer o futuro a partir de coisas que as pessoas vão casualmente encontrando no cotidiano, em especial os animais, do que tenho aqui uma listinha: borboleta – saúde fértil e momentos de felicidade; grilos – sorte (lembro aqui o filme O Último Imperador em que o príncipe chinês tinha um grilo numa caixa, cheio de simbolismos); gatos de qualquer cor – sorte também (agora me lembro de uma entrevista do famoso paranormal israelense Uri Geller em que ele afirmava que os gatos pretos, ao contrário da crença difundida, são animais muito positivos, atraindo para o local em que se encontram todas as energias negativas da casa); ratazanas a saírem da casa: morte (e a saída delas verdadeiramente é saúde, não é?); galo a cantar durante o dia – visita nesse mesmo dia.
A grande novidade no assunto, foi, no entanto, colocarem um bicho para predizer os resultados dos jogos da Copa do Mundo da África de Sul, e a humanidade inteira se espantou com a exatidão do polvo Paul, que dentro de um aquário na cidade alemã de Oberhausen, tendo sua ração colocada em duas vasilhas, cada uma com a bandeirola de um dos países competidores, dirigiu-se para comer naquela do que invariavelmente venceu. Tanto sucesso valeu-lhe uma estátua, depois de morto “por causas naturais”, disse a imprensa, também só faltava matarem um fenômeno desses...
Aí, estimado leitor, neto decepcionado, depois desta conversa tão bonita, entra em cena uma esperta senhora que mandou espalhar pela cidade aqueles prospectos encimados por Madame Fulana de Tal e recheados das promessas que todos os desesperançados ainda meio esperançosos querem alcançar no amor, na profissão, nas finanças, além de se livrar do olho-grande...
Pois bem, devido ao retorno zerado, sem nenhuma consulta na sua sala cheia de meias-luas e figuras de corujas, teve uma idéia genial: por que não ter ela, também, um animal adivinhador? Pensou logo na cocota presa na,área dos fundos, mas se lembrou do jornal da televisão em que apareceram uns sujeitos sendo multados pelo Ibama. Foi então que, como um aviso, aconteceu um curioso fato ligado à apantomancia: seu galo cantou de dia. Na verdade, era um galo cantador, desses que demoram na melodia e que são vendidos bem caros.
E não era dela, mas de quem morou anteriormente na casa e pedira para deixá-lo uns dias no galinheiro. De qualquer forma, o cocoricó lhe chamou a atenção, e ela foi dar uma espiada no galinheiro, onde o viu ciscando junto com sua galinha única, comprada para o almoço de um domingo mas que o fato de estar botando ovos todos os dias vinha adiando a ida à panela. – Está aí – pensou em voz alta – a minha galinha dos ovos de ouro. Sim, é só eu colocar mais um ninho, num escrevo SIM e no outro escrevo NÃO. Faço a pergunta à galinha e para onde ela for, é a resposta; - Mas como vou fazer o bicho entrar no ninho? A resposta veio da sobrinha, que era a entregadora dos anúncios: - Muito simples: deixe a galinha sem comer e ponha milho no ninho em que desejar que ela entre.
- Não, não, essa idéia está meio furada. Acho que vou fazer um baralho de bichos, conforme a carta que a pessoa tirar, eu dou a minha previsão. Algumas coisas são bem fáceis: o sujeito está desconfiando que a mulher o trai, aí ele tira uma galinha e se, em seguida, forço que tire um pato, um ganso ou um peru, olha a traição, fica tudo mais que confirmado. Vem uma estudante, quer saber se vai passar, aí tira um burro, depois forço que tire uma zebra... É, o negócio é mostrar o lado negativo porque aí entra a minha parte de desfazer o mal e você sabe que é onde entra o bom dinheiro.
- Tia, você é um gênio. Vamos tratar de fazer logo esse baralho.
Tudo deve estar dando certo, porque comprou umas cadeiras para os fregueses que ficam esperando o atendimento. Esperta, não se arrisca como o autor do anúncio que garante “fazer voltar o amor em 24 horas”. E se o consulente estiver amando alguém que se ache viajando numa cápsula espacial? Vai demorar, vai demorar. Não, ela se limita ao truque que inventou e está usando com muito bom manejo o baralho cheio de bichos recortados de revistas e colados na cartolina. Mas sua grande proeza é fazer tirarem sempre os bichos que lhe interessam.                                                                                                                
Outro dia foi lá um senhor, jogador inveterado e confiante, querendo saber se tinha chance na tão desejada mega-sena. Nas cartas tirou uma tartaruga e um cavalo; - Ah, interpretou ela, isso significa que a sua sorte está em ritmo de tartaruga. Apesar do óbvio, o consulente confirmou animado. – Mas sua sorte quer vir rápido como este cavalo. Um está anulando o outro, temos que fazer um trabalho para descartar a tartaruga, fica em duzentos reais, o senhor sabe, vou ter que fazer uma viagenzinha, trabalho pra tartaruga tem que ser feito à beira-mar.
Ele pagou e ela garantiu: - Continue jogando, que o senhor vai ganhar. Parece que deu conselho para si mesma, pois continua ganhando com seus bichos de papel.
Ah, os bichos! Para obter, alguma coisa através deles, mesmo que não seja por números, os seres humanos sempre pintaram o sete, sendo a recíproca verdadeira: olhe a serpente no Paraíso. É, vovó, você não estava sozinha. Valeu, caro leitor?