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Viagem no trem-bala

por José Viriato da Silva
Alguns consideram que, no Brasil, será uma custosa e dispensável inutilidade; não faço parte desse coro, por isso vou falar nele com toda a  boa expectativa que mais uma surpreendente invenção da tecnologia merece.
Não sabia de onde foram tirar esse nome, achava, no mundo violento em que estamos vivendo, que a primeira e imediata inspiração para sugerir velocidade só poderia mesmo ser esta. Em outros tempos – pensei – teria sido “trem-relâmpago”, mas até que não ficou ruim com sua economia verbal e esse hífen tão sugestivo que torna o composto parecido com dois vagões engatados, embora tal adereço não apareça naquela forma aerodinâmica..
Mas não deixei que a suposição me levasse a transmitir idéias erradas, nada disso, a pesquisa está aí, ô xente: “É a tradução ocidental do termo japonês ‘dangan ressha’, alcunha dada ao projeto enquanto ainda estava na fase inicial de discussão nos anos 30. O nome cristalizou-se devido ao fato de as locomotivas Shinkansen terem aspecto muito parecido à figura arredondada de uma bala e a sua alta velocidade”.. Como vemos, a escolha se deu pela semelhança, o mesmo que ocorreu com a “ave grande”, o avião, cujo raciocínio simples também contribuiu para que se impusesse ao invés de aeroplano.
Dito isto vamos pensar como seria a tal viagem com o trem possuindo 93 minutos para cumprir 511 km entre o Rio e Campinas, à velocidade de 350 km/h.
Em primeiro lugar, deve existir interação praticamente nula com o mundo exterior, tudo acontecendo veloz na frente do comboio hermeticamente fechado. Assim, nada parecido com as paqueras que rapazes e moças faziam discretamente nas plataformas com gente que estava sentada lá dentro..
E não haverá vendedores de tabuleiros nas mãos, como aquele que era famoso na estação de Barão de Vassouras anunciando o queijo suíço Barão de Vassouras com uma entonação toda especial. Também, na bonita estação de Barra do Piraí, um certo admirável Tio Abel não teria como vender seus deliciosos pastéis para ajudar a formar engenheiro o filho. No trem-bala só se come lá dentro, terá certamente um restaurante que, pela lógica, deveria servir fast-food, mas bem pode servir os lanches dos aviões que tantos consideram insossos. Ou servirão refeições muito chiques e caras?
Falamos no que não ocorre de fora para dentro, mas, e de dentro para fora? Claro que, apesar da pressa, há jeito de observar a paisagem. Diz um site sobre o trem-bala de Madri a Barcelona que, na saída desta cidade descortina-se a paisagem mais bonita, quando a ferrovia atravessa a região produtora de vinhos de Penedés. Acrescenta que, logo após, a paisagem fica desértica, monótona. Aqui, atravessando o Vale do Paraíba muita coisa interessante será vista, só que os pormenores, não. Nada de acontecer como na linda canção Gente Humilde, imortalizada por Ângela Maria, que fala na palavra Lar escrita nas fachadas, enquanto passa o trem que, pela época, devia ser o Santa Cruz ou o Vera Cruz, aqueles de aço que uniam o Rio a São Paulo e a Belo Horizonte.
No trem-bala haverá pouco tempo para quase tudo, leitura de preferência dinâmica, mas é mais que suficiente para as paqueras instantâneas da atualidade, que resultam em geral em relacionamentos curtos. Do jeito em que estão, alguém embarca solteiro e solteiro desce, porque a duração da viagem foi suficiente para um casamento e um divórcio.E aqui está a hipérbole, figura de linguagem que traduz exagero, mas é que tanta velocidade se associa a ele.
Uma das grandes vantagens desse é a ausência daquela chaminé da maria-fumaça, lembrada com nostalgia mas que passava despejando no ar em forma de fumaça a nossa destruída Mata Atlântica. Chaminé, você não faz falta, a não ser para lançar fagulhas e ciscos,  que podem até  inspirar obras de arte, como me refiro logo adiante.
Aliás, ainda vão aparecer as grandes obras tendo como fundo o trem-bala, como o mítico Expresso do Oriente inspirou o famoso romance de Agatha Cristie, depois transformado em filme. Também no cinema surgiu uma película fi notável, com história do inglês Noel Coward, baseado num cisco da locomotiva que foi parar no olho de uma mulher na plataforma: socorrida por um médico que estava por ali, surge então um fino enredo. Espera-se que algum originalíssimo compositor fará algo tão expressivo como Villa Lobos no “Trenzinho do Caipira”. Quase se duvida não tenha Júlio Verne previsto e escrito um livro sobre o assunto, isso realmente não ocorreu, mas a gaúcha Martha Medeiros acaba de lançar o livro de crônicas “Trem-Bala. É assunto que vai mexer com a inspiração.
Muitas maravilhas trará esse trem, ele próprio maravilhoso. Enquanto não chega – e, pelo andar da lenta carruagem parece que vai demorar graças aos negócios nunca acertados com as empreiteiras nacionais e estrangeiras – bom, o jeito é aguardar. Falam em 2016, mas muitos duvidam.
E não falemos em acidentes, como os já ocorridos na Alemanha e na China, afinal todo meio de transporte pressupõe algum risco, confiemos em Deus e, os católicos, também em N. S. Aparecida cuja basílica será vislumbrada no roteiro.
Daqui de Valença o modo mais prático para embarcar será uma viagem rodoviária à estação mais próxima, em Barra Mansa, o que levará mais tempo que o percurso no trem daí até São Paulo, 71 minutos. No mais, não querendo observar o mundo lá fora, é só fechar e abrir os olhos que o trem-bala chegou ao seu destino.
Se o caro leitor já se vê como um feliz passageiro, com prazer desejo-lhe boa viagem!