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Mosca na Sopa

por Samir Resende
Eu sou a mosca
Que pousou em sua sopa
Eu sou a mosca
Que pintou prá lhe abusar...



Se tem um incômodo que os anos vêm me trazendo é a chatice. Paciência eu nunca tive mesmo, mas ficar chato era um mal que eu não imaginava que ia me acometer. Assim como disse o prêmio Nobel e comunista português, José Saramago, pessimista eu nunca fui... Péssima é a realidade. Mas confesso que ser um chato é cansativo.
Tô ficando chato porque não tô vendo a maravilha do progresso recente e o desenvolvimento sustentável que a televisão e os telejornais tentam me vender em som digital e imagem 3D. Tô ficando chato porque não consigo entender como uma cidade que, há 50 anos, tinha dois hospitais de pronto atendimento ao povo, hoje só tem um. Tô ficando chato, pois não consigo acreditar que um Estado que tem mil mortes anuais por autos de resistência policial (90% jovens pobres e negros) esteja “pacificado”. Tô ficando chato porque não consigo me conformar com esta Copa do Mundo fajuta, esta Olimpíada que, por enquanto, só trouxe especulação imobiliária; com a hipocrisia que é tratado quem tenta ver o problema das drogas ilícitas pela ótica da saúde e redução de danos (enquanto isto, as multinacionais que fabricam a vodca Absolut e a Big Apple estão lucrando bilhões com a mesada dos adolescentes). Tô ficando chato, pois não concordo com a lógica meritocrática e empresarial que os governos de direita tentam enfiar guela abaixo dos alunos das escolas públicas. Tô ficando chato porque não vejo mais nos jovens a vontade crítica de mudar isto tudo que está aí.
O que ainda me anima é que os chatos sempre tiveram lugar de destaque na história. Para o bem e para o mal. Um chato do bem que eu gosto muito é o saudoso professor Darcy Ribeiro, que definiu muito bem a sua “chatice” já no final da sua impávida vida: “... Sou um homem de causas. Vivi sempre pregando, lutando, como um cruzado, pelas causas que comovem. Elas são muitas, demais: a salvação dos índios, a escolarização das crianças, a reforma agrária, o socialismo em liberdade, a universidade necessária... Na verdade somei mais fracassos que vitórias em minhas lutas, mas isso não importa. Horrível seria ter ficado ao lado dos que nos venceram nessas batalhas”. Feliz 2012 Valença, na medida do possível!