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Quando Acabar o Maluco Sou Eu

por Samir Resende
“Por um mundo mais louco” – está aí um tema que a contracultura encarnou na juventude mundial, começando nas universidades e ruas francesas na década de 60, passando pela florida e lisérgica Califórnia e a punk Londres, chegando ainda cedo na América do Sul. Se este momento histórico não produziu uma corrente sólida no pensamento político, pelo menos nas artes foi um dos momentos mais “doidos” e lúcidos da nossa musicalidade e poesia. Todos deveriam assistir uma aula de história do professor Alexandre, uma vez na vida.
No Brasil, a ode à loucura, ao hedonismo controlado e ao desbunde responsável transita soberana no seio da juventude, em todas as cores e matizes possíveis. Desde militantes aguerridos na heróica resistência democrática, passando pelo playboyzinho “stronda” consumista e até mesmo na redação de uma  esperta e doce aluna da rede pública estadual em Valença.
Enquanto em Wall Street/EUA, centenas de jovens protestam por melhores condições sociais, com sensatas críticas ao capitalismo financeiro, a imprensa babaca do Brasil tenta taxar o movimento de “indignados” e ajuda organizar passeatas estéreis, numa clara tentativa de atacar o governo da presidenta Dilma Roussef. Estou desconfiado que exista um acordo tácito entre a imprensa e o poder central, pois não é possível que os idiotas que lá trabalham não percebam que quanto mais batem no governo, mais este se fortalece. O problema da grande mídia é de credibilidade, ou falta dela.
Serão os jovens os loucos? Será mesmo que se deixam manipular por idéias radicais? Será que com o amadurecimento nos “curamos” da rebeldia? Como queria conversar com Sócrates um dia (o filósofo).
Só sei que nada sei nessa história toda. Para concluir, peço licença ao editor que me cede este precioso espaço, para transcrever os dois parágrafos iniciais do discurso que o filósoso Slavov Zizek proferiu para os jovens manifestantes amotinados em Nova Yorque: “Não se apaixonem por si mesmos, nem pelo momento agradável que estamos tendo aqui. Carnavais custam muito pouco – o verdadeiro teste de seu valor é o que permanece no dia seguinte, ou a maneira como nossa vida normal e cotidiana será modificada. Apaixone-se pelo trabalho duro e paciente – somos o início, não o fim. Nossa mensagem básica é: o tabu já foi rompido, não vivemos no melhor mundo possível, temos a permissão e a obrigação de pensar em alternativas. Há um longo caminho pela frente, e em pouco tempo teremos de enfrentar questões realmente difíceis – questões não sobre aquilo que não queremos, mas sobre aquilo que queremos. Qual organização social pode substituir o capitalismo vigente? De quais tipos de líderes nós precisamos? As alternativas do século XX obviamente não servem.
Então não culpe o povo e suas atitudes: o problema não é a corrupção ou a ganância, mas o sistema que nos incita a sermos corruptos. A solução não é o lema “Main Street, not Wall Street”, mas sim mudar o sistema em que a Main Street não funciona sem o Wall Street. Tenham cuidado não só com os inimigos, mas também com falsos amigos que fingem nos apoiar e já fazem de tudo para diluir nosso protesto. Da mesma maneira que compramos café sem cafeína, cerveja sem álcool e sorvete sem gordura, eles tentarão transformar isto aqui em um protesto moral inofensivo. Mas a razão de estarmos reunidos é o fato de já termos tido o bastante de um mundo onde reciclar latas de Coca-Cola, dar alguns dólares para a caridade ou comprar um cappuccino da Starbucks que tem 1% da renda revertida para problemas do Terceiro Mundo é o suficiente para nos fazer sentir bem. Depois de terceirizar o trabalho, depois de terceirizar a tortura, depois que as agências matrimoniais começaram a terceirizar até nossos encontros, é que percebemos que, há muito tempo, também permitimos que nossos engajamentos políticos sejam terceirizados – mas agora nós os queremos de volta (...)”. Saudações a quem tem coragem.