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Mulheres nuas

por Neumar Rodrigues
Sou detetive. Não um detetive literário como Remo Bellini, o Xangô de Baker Street, Sherlock Holmes, o advogado do Mandrake ou o delegado Espinosa. Não sou nem mesmo um Ed Mort. E olha que, de todos esses, o que mais se aproxima de um detetive de verdade é mesmo o Ed Mort. Sou um detetive de carne e osso e, portanto, nunca solucionei homicídios nem crimes complexos e intrigantes. Se nem a polícia consegue resolver, por que eu iria conseguir?
O que rola mesmo são os casos corriqueiros de adultério (que não podem ser chamados de crime, tal assiduidade com que acontecem) e os de suspeita de adultério. Mas não pensem que as suspeitas superam as confirmações. Somos adultérios, e não me refiro ao ato sexual. A grande verdade é que todos sabemos como o adultério pode ser sutil, não é mesmo? As trocas de olhares numa festa ou num restaurante, um telefonema aparentemente equivocado no meio da tarde, um galanteio silencioso ou um elogio ao pé do ouvido.
Eu sei. Vocês sabem. Todos conhecemos nossos pequenos segredos. Mas não é sobre isso que eu quero falar. Eu quero falar sobre mulheres. Adoro analisá-las quando não sabem que estão sendo obsevadas. Fazendo compras, pressionando tomates, checando a validade de potes de iogurte ou namorando vitrines de lojas de roupa. Adoro observar suas expressões quando atravessam a rua e olham para os carros que se aproximam.
Amo vê-las nas igrejas, de tarde, rezando em silêncio. E, por mais religiosa que seja uma mulher, nunca se soube que ela se suicidasse ou que matasse alguém por causa de suas convicções espirituais, como fazem cretinos islâmicos ou irlandeses. Adoro observá-las na praia, seminuas, deitadas na areia de olhos fechados. E, quanto mais despidas estão, menos se parecem com aquelas coitadas que vivem encobertas, proibidas de existir, a levar bordoadas de barbudos ignorantes. Amo as mulheres nuas, e isso faz de mim um homem livre.