O amor inesgotável
por Neumar RodriguesPrimeiro engano: casamento não é consequência de um amor romântico. Embora tenha lá sua contribuição no começo da história, o sentimento explosivo dos livros e das novelas vira é paixonite, caso, namoro. Mas o que leva mesmo alguém a dividir a vida com outro alguém tem mais a ver com outro tipo de amor – o amor profundo e inesgotável da amizade.
Sabe quando a gente era criança e não conseguia se desgrudar do melhor amigo? Aquela pessoa para quem se podia contar qualquer coisa e fazer todos os planos mais improváveis? A companhia não enjoava, assunto não faltava, não havia vergonha. Tudo era tão simples...Quando finalmente conseguimos encontrar essa pessoa, é chegada a hora de dizer sim ao casamento.
Casamento, eu também descobri, não tem nada a ver com encontrar o par perfeito, que se encaixa sem arestas. Na minha história, é sobre respeitar alguém diferente, o que exige negociações diárias e infinitas. Desde que chegamos ao consenso de onde vai ficar a estante nova, até decidirmos quando virão os filhos, raramente concordamos com a primeira. E o mais bonito não é pensar tudo igual, na linha” fomos-feitos-um-para-o-outro”, mas nos descobrimos capazes de aprender juntos e de cultivar generosidade de ouvir, entender, ceder, somar.
Casamento não tem a ver com paixão. Ou, pelo menos, não com o tipo que nos vendem, dessas cegas, que se põem acima de tudo. Na real, é o contrário. Casamento – acredito – vive é da admiração da verdade do outro. Enxergá-lo como é, e não como a gente desejaria que fosse. Sem filtros nem disfarces, sob a luz da intimidade e da rotina. Com todos os humanos que oscilam, as falhas que temos, os nossos desacordos. E é exatamente quando passamos a conhecê-la tão bem, a admirá-la por inteira, que nos encanta a cada descoberta.
Num casamento as grandes declarações não vêm de helicópteros jogando rosas no telhado. Embora o pedido tenha sido de filme, no dia a dia, assim como as melhores coisas da vida, o amor surpreende nos momentos mais simples. Como ouvir uma cantada quando está com a cara amassada de sono ou ver a pessoa fazendo piadas quando se está de mau humor. Se derreter com um “tava morrendo de saudade” depois de poucas horas longe e com a companhia silenciosa enquanto se tem que trabalhar em casa. As gentilezas, assim, fazem todos nossos dias especiais, não só os marcados no calendário.
Casamento, eu entendi, tampouco é garantia. Os vazios que eu tinha em mim continuam a existir. As incertezas do que fazer da vida ainda são as mesmas. Minhas contas a pagar, minha aflição de ter o coração partido, meu complexo, minhas infelicidades particulares, quando a gente casa, não sara. Mas dividir tudo isso quando se chega em casa, dá forças que não sabia ter, e uma razão maior para resolver tudo: quero ser feliz comigo para, assim, ser mais feliz com ela.
Por fim, eu aprendi que casamento não é para sempre. É para agora. Não se trata de uma promessa única, mas de um compromisso que se renova a cada manhã, a cada surpresa, a cada briga, a cada reencontro. A vida é cheia de encruzilhadas. E, a cada vez que encontramos uma, temos que decidir novamente se vamos continuar seguindo o mesmo caminho, lado a lado.
E é assim, esquecendo as ideias prontas, que acredito que o romance permanece, nos tornamos um par de verdade, a paixão supera a passagem do tempo e vamos passar o resto da vida juntos. Não é um conto de fadas. Mas é a maior história de amor que conheço, porque ela é real – porque ela é minha. E, quando a gente acha que o que temos é o melhor do mundo, aí, sim, é que se ouvem os fogos de artifício.
Todas as histórias de amor são as maiores do mundo para quem as vive, e é isso que as faz tão incríveis. Espero que inspirem você também a se apaixonar, seja pelo mesmo, seja pelo novo, e a viver cada encontro (e cada desencontro) como se fosse a primeira e a última vez.
