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Sonhos dentro da dimensão do tempo

por Neumar Rodrigues
Ainda me lembro quando o tempo praticamente não existia para mim. Parecia que teria uma infância sem fim. Vida de roça, em Pentagna, distrito de Valença, há 200 quilômetros do Rio de Janeiro. Estudava pela manhã. Mas, antes, tinha que pegar o litro de leite na fazenda do tio Lelé Duboc. Era a minha primeira tarefa. Acordava ainda sem a luz do dia. No inverno o nevoeiro era intenso. Um frio de lascar e, de longe, praticamente não via as vaquinhas chegando ao curral. O tio Lelé era uma pessoa fantástica. Tinha as mãos fortes, já que a ordenha era manual e feita por ele mesmo. Aquele seu trabalho não era simplesmente a sua fonte de renda. Era a sua satisfação e lugar perfeito para reunir amigos e ajudar muitas pessoas pobres que lá estavam todos os dias a espera do seu litrinho de leite.  Eu ficava admirando sua prática. E o leite puro, sem qualquer substância química, ia lentamente enchendo o balde que ficava entre as suas pernas. Mas era só correr os olhos para constatar que a “plateia” estava com copinhos nas mãos esperando ansiosamente a chamada do Tio Lelé para saborear o leite da Mimosa. Sem cobrar nada. Êta coração!
Tio Lelé tinha um humor refinado e um coração de criança. Sua esposa, tia
Quininha, por vezes chegava com a broa de milho feita no forno a lenha. Eu, criança, buscava o pedaço maior. Tio Lelé e tia Quininha, na verdade, não eram meus tios. Mas todos lá os chamavam assim.  Cresci com mais saúde graças ao leite, as frutas e os remédios caseiros do casal.  Eu e mais um monte de gente.
Mas em Pentagna também teve uma outra pessoa marcante em minha vida. Ele foi batizado com o nome de Walter Alencar Esteves,  conhecido e chamado pelo apelido de Cutuquinha. Comerciante de profissão, ele foi um verdadeiro pai.
Participou diariamente de todos os momentos da minha família. Quantas vezes nos socorreu, quantas vezes nos orientou com sua sabedoria de mestre...Tempo lindo em que a minha família, pobre demais, teve a honra e a gratidão de ser ajudada em vários momentos por ele. Jamais esqueceremos de você, Cutuquinha!
Acho que cresci antes do meu próprio tempo. E, com isso, o tempo acabou entrando vigorosamente na minha vida, para nunca mais me deixar. As lições que daí aprendi trago até hoje. E minha gratidão aos que me ajudaram a crescer é eterna.
Os anos passaram, outros anos vieram, com muitos sonhos realizados. Quanto mais à idade avança, mais o danado do tempo insiste em acelerar. Êta, tempo teimoso, pois quando eu insistia para ele passar rápido lá vinha ele me contrariando e agora faz o caminho inverso de mim. Restará o consolo de que quando os impulsos aos poucos forem me abandonando se abrirão as portas para a sabedoria, grande herdeira da experiência.