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Violência oculta

por Neumar Rodrigues
Faz muito tempo que ouço políticos apontarem as drogas como as principais vilãs de quase tudo de ruim que vêm apavorando a sociedade. E naqueles desabafos, muitos simulam encolerizar-se, enquanto parecem possessos e mostrando, por outro lado, uma inteligência obscurecida por severos e gananciosos instintos de poder. Quando o assunto está relacionado às drogas, alguns deles deveriam crer que gritos de explosões emocionais ou dedos em riste não farão valer as suas opiniões em prol de um povo carente de soluções inteligentes, também, naquela seara. Legisladores aproveitam para deter-se nos aspectos mais graves e macroscópicos da violência, para culparem unicamente as drogas e “Cia” por tudo de ruim que assola a nossa sociedade e... pronto: sentem-se de mãos e consciências lavadas. Ora! Isso é muito fácil; mas não é preciso ser político para chegar a essa conclusão.
As drogas não constituem a única raiz das tragédias diárias em nosso município. Será que os nossos legisladores, em algum momento, detiveram-se para analisar a violência mor e que faz bandear um número cada vez maior de imberbes em direção às drogas e para, inclusive, sentirem-se ilusoriamente anestesiados perante as excessivas cobranças que diariamente impomos a eles?
As drogas são um escândalo que se encontra embutido numa violência oculta, dissimulada, legalizada e que ronda-nos diariamente: administrações públicas ineficientes e irregulares e que, por isso, terminam sendo facilitadoras ao uso de drogas; o caso de escolas que não formam os jovens adequadamente e dada, por exemplo, a insatisfação salarial do corpo docente; o de médicos do SUS que cobram emolumentos indevidos e até exorbitantes; o de patrões que impõem aos seus operários, condições desumanas de trabalho ou negam-lhes salários justos. Pô, querer generalizar, dizendo que as causas de tanta insatisfação e violência são - unicamente - as drogas é muito fácil; de uma vez por todas, muitos dos legisladores que aí estão deveriam entender que as drogas não são causa e, sim, consequência do que é ruim que oferecemos aos nossos jovens e falta do muito de bom que deveríamos oferecer-lhes.
Apontar os problemas sociais unicamente sob a ótica das drogas é algo que suscita a psicose e faz desviar a atenção popular para aquelas substâncias e as quais, na realidade, mal algum causam, desde que não absorvidas pela ação impulsiva de pessoas emocionalmente perturbadas ou mal informadas; é, ainda, não desejar crer no óbvio: o motivo de tanta desgraça é de índole social e a partir da destruição de valores morais, capazes de conter os impulsos instintivos da violência e do mal. A inércia de quem poderia fazer mais pelo social e a impunidade que campeia o nosso país, são algo que termina convencendo delinquentes de que a vida é uma droga e que (por isso) a violência vale a pena. E aí culpam as drogas.