A lontra do Rio Bonito
por MimaAinda bem que falar de Conservatória não se limita ao canto e a serenata, porque nesta deliciosa localidade habita gente tão rica em histórias que poderemos aqui virar noites proseando e dando muita risada. E como o apelo foi forte, de uma conversa informal com dona Teresa, minha vizinha querida, pessoa bondosa que me aguarda aos finais de semana, com muito afeto, surgiu esta novidade aqui. É bom quando se sente a verdade nas pessoas. Minha amiga me contava sobre a lontra que mora no rio que faz limite de fundos com nosso quintal de casa. E o quanto suas tardes são em parte relaxantes, fica ali sentada sob as sombras de árvores frutíferas, papeando com a filha Marcinha, ao fundo de casa. Isso pra tomar conta da criação. Mas nem só de tranquilidade vive este momento, atenção redobrada, porque se assim não proceder, corre o risco de perder alguma galinha, alcançada pela lontra...
Nossos quintais fazem rumo com o Rio Bonito e a conhecida lontra mora lá pras bandas do cemitério, numa loca de pedras, e vem a nado em busca de alimentos por toda extensão do rio. Muitas pessoas perdem seus bichos, muitas vezes estes sumiços já foram alvo de atritos e desconfiança, porque este carnívoro de hábitos semi-aquáticos, alimenta-se de peixes, répteis, anfíbios, insetos, crustáceos, mas também de mamíferos e aves. E muitas vezes caça nos quintais das casas e come ali mesmo, a beira do rio. Mas que não suma nada e seja culpa da lontra... com piada ou não, Conservatória ainda é um lugar de pouco perigo, isso é fato.
Não se sabe muito bem se há apenas um animal no rio, se for, deve ser algum solitário macho, pois é assim que vivem, normalmente. Os grupos são compostos por uma fêmea com seus filhotes ainda jovens (podem nascer a cada gestação, de um a cinco filhotes) e os machos adultos, só ficam próximos na época do acasalamento. Um macho adulto pode chegar a quinze quilos e cerca de oitenta centímetros de comprimento, com cauda de mais uns cinqüenta centímetros, tem pelagem densa, macia que varia em tonalidades de castanho claro ao escuro. Embora haja o “perigo” para os animais de casa, são animais considerados na lista dos animais ameaçados de extinção, principalmente pela caça, pelo alto valor da sua pele, pela depredação dos ecossistemas ao qual a lontra está adaptada, também pelo próprio isolamento e perseguição dos humanos. Precisamos de atenção com eles… se ainda temos um visitando nosso quintal, que alegria, significa que ainda estamos com um certo controle ambiental, não é? Os galinheiros são a solução para eliminar sua ameaça.
Dizem que as lontras são dóceis (apesar de selvagens) e “a nossa” gosta de brincar de esconde-esconde com as pessoas. Uma lontra alcança velocidade ao nadar, de até doze quilômetros por hora (se o rio não tivesse tão assoriado, acreditaríamos nesse poder de natação da bichinha), pode submergir por até mais de cinco minutos e sua comunicação oral é o guinchar, assobiar e chiar… já ouviu um assobio durante a serenata? São de hábito noturno, dormem o dia todo, acordando no finalzinho da tarde para então buscar alimento… tão boêmias como a nossa localidade.
Se vir por aí um animal de cauda longa, espessa, achatada na base a afunilada na ponta, com patas de cinco dedos ligados por uma membrana, pescoço curto e largo, olhinhos pequenos brilhantes, orelhinhas miúdas e manchinha clara e charmosa no queixo, pode ser a “nossa lontra”. Então, cuide bem dela… ou, simplesmente, se afaste e a deixe viver, livre, silenciosa e num ambiente mais limpo. Não polua os rios.
