Edu, cantor das “Matinatas”
por MimaUm batalhador, como a grande maioria dos músicos, com o diferencial de não ficar esperando a circunstância adequada ou o espaço “certo” para se apresentar: vai à luta e, assim, criou o próprio momento seresta e serenata para se expressar. Toca de dia, sim, canta e toca violão, arrastando multidões – por todo o centro histórico, pelas principais ruas, fazendo todo o circuito turístico do distrito, iniciado sempre a frente da Locomotiva 206. Revive a tradicional serenata, em versão matinal, dando importância ao comércio aberto, parando e saldando seus proprietários, clientes, apresentando aos turistas diversas músicas que fazem parte da tradição do lugar, exibidas nas plaquinhas às portas dos estabelecimentos, assim como nas residências e nos intervalos. Enquanto continuam cantando, apresentam também composições de sua autoria e do companheiro dessa jornada, Zé Maria Ferr. Não formam uma dupla constante, se apresentam também em separado, mas durante este trajeto nas manhãs de sábados, estão juntos numa parceria brilhante. Zé tem cara de sério – risos, e Edu, só de se olhar, percebe-se o jeito moleque. Assim, trajando roupas de época, os dois podem ser vistos e acompanhados pelos senhores e senhorinhas, que são transportados ao passado, pelos dois artistas, com uma musicalidade contagiante. Em baixo de sol forte, muitas das vezes, pude vê-los, com suor de trabalhador, não desistirem, admiráveis que são. Isso é pioneirismo, como a mais de uma centena de anos, alguém começou a história das serenatas na localidade, que hoje, são o maior atrativo do lugar. Mas se este tipo de iniciativa pessoal não tiver apoio, os frutos para a coletividade podem demorar a chegar. “Matinata” foi o nome encontrado por Edu – que por sinal já demonstra a descontração, pelo nome inventado. A serenata matinal é agradável, são tocadas e cantadas composições de sua autoria, bem humoradas ou românticas, e é um verdadeiro passeio musical pela obra de outros compositores, como João Bosco, Chico Buarque, Tom Jobim, Vinícius De Morais, Luiz Gonzaga, Dorival Caymmi, Adoniran Barbosa, Martinho da Vila, Candeia, Nelson Cavaquinho e outros, “das antigas”, como Lupicínio Rodrigues, Ismael Silva, Geraldo Pereira... Noel Rosa, entre tantos.
Afilhado artístico de Clementina de Jesus e tendo não menos que os padrinhos: Cartola, Carlos Cachaça, Paulinho da Viola e Albino Pinheiro (o General da Banda de Ipanema), cujas obras também estão presentes nas apresentações de Edu, seu repertório vai de Samba, Samba de Breque, Bossa-Nova, a variadíssima MPB e Choro, com solados ou na voz e violão. Lançou seu primeiro LP no Rio de Janeiro, pela Odeon, em 1973 e vem lançando CDs ao longo da carreira: agora mesmo, vem chegando um trabalho para a garotada, “A Festa dos Bichos”. Sua obra pode ser adquirida, com ele, durante as apresentações.
Este espaço é pouco, para conseguir discorrer sobre toda carreira do Edu, como poeta e escritor, porque o é: tem músicas de sua autoria gravadas nas vozes de Simone, Isaura Garcia, Elza Soares, Roberto Ribeiro, Jorginho do Império, para citar alguns e muitas gravações, em filmes e peças de teatro, inclusive com participação de Tânia Alves e Elba Ramalho. Realizou trabalhos também com Grande Otelo, Wilson Moreira, Nélson Sargento, Noca da Portela...
Hoje o privilégio de termos este artista residindo em Conservatória é grande, ele que já tocou por casas noturnas em São Paulo, Rio e não só em cidades brasileiras, mas de Portugal e Espanha, teve o trabalho em vídeo, exibido também na Suécia.
E não sou eu quem diz, mas Aldir Blan: “- Eduardo Marques tem talento e disposição...”.
