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Ganhei adiantado, meu presente de Páscoa

por Mima
Eu vi um coelho do mato, passou correndo diante do meu carro em movimento na estrada. Estava voltando de Conservatória, numa madrugada de sábado para domingo (às vezes não me sinto bem em dormir por lá, não sei porque) semanas antes da Páscoa. Este coelho saltitante, que ainda se atreveu dar numa parada, uma olhadinha rápida para o meu lado. Continuarei sem saber, se ele observa sempre a estrada pra atravessar com segurança (pois deveria, outro dia vou contar porque) ou queria mesmo me fazer lembrar do meu pai... Pudesse este animal ter este poder, (seria ele a surrealista Lebre de Março, saído da obra, Alice no País das Maravilhas?) de remeter meu pensamento àqueles apenas treze anos que convivi com meu pai. Homem simples, tranquilo, humilde e brincalhão, um valenciano orgulhoso de suas origens, nascido da união de imigrantes italianos que muito pobre, com honestidade, qualidade entranhada em nossa família, embora pudesse ser humilhado, calado agia, transformando a vida numa célula de paz. Com imperfeições comuns, como todos nós descendentes, amado por muitos.
Coelho ou lebre (sabemos que não tem lebres na natureza, no Brasil), matamos dois coelhos de uma cajadada.  Porque é preciso obter dois resultados com um só esforço... tomar banho e ao mesmo tempo imaginar o cardápio de amanhã, fazer compras e organizar as finanças, dirigir e pensar numa próxima coluna para o jornal, por exemplo. É preciso sim, ser como a corajosa Alice, não como o Coelho branco que corre para a toca, nada é a mesma coisa. “‘Eu gosto daquilo que tenho’ e ‘Eu tenho aquilo que gosto.’’’disse a Lebre durante o Chá dos loucos...
Meu pai, por quê? Porque contava uma história, tão fantasiosa como a fábula de Lewis Carroll. Ele que a desconhecia, com pouco estudo, porém alfabetizado, bom “fazedor” de contas, mas o que mais gostava era de ler jornal, que comprava religiosamente às seis horas da manhã, ao abrir a banca e passar pela padaria. Dizia em um de seus muitos “causos” que um coelhinho branco o acompanhava todas as manhãs para a roça. Enquanto menino, trabalhava na lavoura, sua função era espantar os passarinhos, para não comer as sementes na plantação. Mas como saía sozinho de casa depois dos pais, para ir ao encontro deles, já na lida bem antes, morria de medo do escuro e segundo sua narrativa, o coelhinho estava sempre junto, pulando por entre as moitas, até que o sol raiasse, então sumia... e, ao invés, de temer pelos barulhos e sombras da madrugada, sempre imaginava ser o coelho e isso o levava “em segurança” até o destino. Esta lembrança, foi mais doce que chocolate para minha Páscoa, foi um verdadeiro renascer... Ele continua me ensinando e, na visão do coelho, me acompanhando.
E com a lógica do absurdo, especial característica dos sonhos, sonhando acordada, continuo contando as curvas da estrada. Sim sei quantas são, tem quase duzentas curvas (sentidos para o volante). Falo da RJ-143 - Rodovia  José Borges de Freitas - Irmãos Borges, dos  Km 1 ao 21, trecho compreendido entre o Balneário Municipal João Raposo (Cachoeira da Índia), em Conservatória e o trevo chegando à Rodovia RJ-145, no Marquesão, na entrada de Valença. Conforme está se popularizando depois da pavimentação com asfalto, é a “estrada da cobra louca, onde tem curva, até na reta”. Haja braço, atenção, freios e pneus, afinal, possui em média, dez curvas por quilômetro, uma a cada cem metros...
Pra trafegar por ela, mais do que nunca o slogan, “Se for dirigir, não beba!”, fica enfático.