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Profissão: garçom

por Mima
Quero me despedir nesta semana, de alguém muito especial, que soube aproveitar cada momento de seus tantos anos. Pessoa que dedicou a vida, com abnegação, ao simples cumprir dia após dia, o que tivesse a fazer, fosse dolorido, alegre, trabalhoso, obediente, fácil ou difícil. Mas fazia. Meu tio Sebastião Dutra, Xexê, por apelido de infância que carregou como identidade até o último momento, na nossa despedida de familiares.
Nasceu em Valença, nas proximidades da Fazenda da Harmonia. Ficou órfão ainda bebê, quando a mãe, vítima de ferimento por mordida de cão raivoso veio a falecer, deixando não só ele, mas outros quatro filhos. Entre eles, meu pai, Quirino, com cinco anos. Uma menina, Nair, que nascera entre os dois. Mais um menino, mais velho, Domingos e Vicentina, que antes dos dezessete anos, heroicamente assume a criação dos irmãos, todos menores. É uma estória que parece um romance, de tão bonita. Ouvi isso durante tantos anos, contada por meus pais... Uma família que se iniciou estabilizada financeiramente, depois pela fatalidade do vício do álcool, meu avô perdeu “a venda” de sua propriedade, comércio próximo à fazenda e que era a que abastecia a redondeza. Enfraquecido e envergonhado, desnorteado corroído pela doença, deixa Valença, em busca de outras paragens. Eram os anos 20, e João Dutra, português-açoriano, parte para nunca mais voltar, deixando para trás, a esposa, Perciliana - italianinha, que em alguns documentos aparece apenas como Percília Donazia - e quatro filhos nascidos e um a caminho, exatamente o querido tio Xexê.
Menino que nasceu sem conhecer o pai e privado do amor e afago da mãe, encontrou primeiro nos irmãos o apoio e esteio, depois num grande amor, no casamento, muito jovem, com Zilda. Tiveram cinco filhos lindos, uma escadinha de loirinhos, que muito bem criados, hoje estão encaminhados na vida, com profissões e famílias bem estruturadas.
Foi sobrevivente da mesma doença do pai, deu a volta por cima e retirou o vício de sua vida, foi garçom desde o primeiro emprego e dos bons, tendo permanecido como preferido, entre tantos. Teve momentos difíceis, convivendo e contornando outras tantas situações de doenças no próprio lar, manteve-se firme, caráter reto, digno em cumprir sua missão.
Conservatória é território de garçons, que circulam pelas ruas, com seus distintos uniformes, em vários turnos, almoços, jantares e em dobras exaustivas madrugadas à dentro, tantas vidas diferentes e tão iguais. Que o exemplo deste homem simples, sorridente, bonito, sempre asseado fique como forma de agradecimento a estes profissionais, que da mesma maneira, estão sempre disponíveis a nos servir.
Tio, “tá todo mundo gordinho”, o senhor era incrível, tinha esta frase na ponta da língua, quando encontrava pessoas queridas, sua melhor expressão guardada no meu coração: “tá todo mundo gordinho, então tá tudo bem!”. Seguiu seu destino, assim quis Nosso Senhor, serviu sempre, com profissionalismo impecável que os anjos agora te apresentem uma vida serena, cheia de paz!